Uma voz rouca, grave e rasgada sintetizava, nos anos 1970, a expressão de um Brasil com forte herança africana e singular formação religiosa. A dona da voz tão inconfundível tem nome: Clementina de Jesus da Silva.

Neta de escravizados, nasceu no ano de 1901, na cidade de Valença, na região cafeeira do estado do Rio de Janeiro. Mas, foi só aos 63 anos que ela ganhou os palcos e revolucionou o samba, após ter sido descoberta pelo poeta e futuro produtor musical Hermínio Bello de Carvalho. O jovem ficou fascinado pela sambista fluminense e passou a prepará-la para o espetáculo Rosa de Ouro, show que a consagraria.

Clementina hegou ao mundo artístico em plena ditadura militar nos anos 60. Em tempos de bossa nova, essa chegada que fortaleceu diálogos de reaproximação com as origens negras do samba, extrapolou a música e marcou um terreno cultural de significados repletos de tradições e sentidos de pertencimento compartilhado, em torno de raízes culturais comuns.

Alçado por pensadores e políticos nos anos 30 como um dos mais fortes símbolos da identidade nacional, o samba foi incorporado a um processo de fortalecimento da ideia de democracia racial em um Brasil que, supostamente, aceita e valoriza sua negritude. A difusão da ideia de harmoniosa convivência com os negros do país prevalecia, sobretudo, no período restrito, permitido e controlado do carnaval quando, para colocar “ordem na desordem” constava no regulamento oficial das agremiações a obrigatoriedade de enredos com temas de “finalidade nacionalista”.

A estratégia escamoteava as desigualdades sociais, as perseguições e violências sofridas por sambistas – além dos capoeiristas e terreiros de religiosidades de matriz africana – respaldadas pela Lei da vadiagem, sancionada em 1941, que considerava ociosidade como crime e permitia a abordagem e a prisão de pessoas que andassem nas ruas sem documentos, ou estivessem em situações de “baderna social”.

Essa violência impactou as experiências vividas por diferentes africanos escravizados e seus descendentes, que tinham essas tradições como possibilidade de vida, liberdade, pertencimento, vínculo de dignidade e conexão com a história. Olhando as produções artísticas e culturais como territórios de resistência política, com atenção ao contexto, Clementina grava o samba: “Não vadeia, Clementina”, com a contundente resposta: “Fui feita para vadiar”.

A pergunta e a resposta podem ser lidas como uma brincadeira, mas, relacioná-las como referências sutis à violência contra o samba e a lei da vadiagem, fortalecem o sentido de crítica social que está na continuação da mesma música: “energia nuclear, o homem subiu à lua” que Clementina responde: “É o que ouço falar, mas a fome continua!”.

Pensar Clementina de Jesus permite reflexões sobre uma atualidade que, embora incorpore algumas mudanças, convive com muitas coisas que insistem em permanecer. Um exemplo é o próprio Rio de Janeiro – cidade em que Clementina cresceu, morou, trabalhou e começou a espalhar sua arte – com uma violência alardeada diariamente por números estatísticos que têm cor e classe social, com algumas situações noticiadas e outras silenciadas e nem mostradas, de tão cotidianas e naturalizadas. Ainda no próprio Rio de Janeiro, a nova onda de perseguição aos terreiros de candomblé e umbanda, proibições de rodas de samba de rua, entre tantas outras questões sociais de desigualdades de acesso e de direitos, que permanecem desde o fim da abolição da escravatura, prestes a fazer aniversário de 130 anos no Brasil.

Assim, chamar por Clementina de Jesus é também fortalecer a crença na arte e na cultura, como instrumentos de ampliação de conhecimentos e reflexões, que apontam caminhos de olhares críticos em busca de transformações sociais. A potência daquela voz marcante, diferente e  inconfundível, desperta uma memória ancestral que amplia histórias individuais e transborda para o sentido de uma coletividade de sensibilidades e experiências, em diálogo com uma trajetória de vida que é reconhecida como comum para muitas pessoas. Clementina simboliza que os passos das mulheres negras vêm de longe, e é um elo sensível de resistência poética e estética que transforma visões de submissão em orgulho e pertencimento, apontando belezas, reconhecimento, resistência e representatividade.

Rainha Quelé, como ficou conhecida Clementina de Jesus, criou as filhas sozinha e trabalhou como empregada doméstica até o começo da vida artística. Negra, idosa e pobre, Quelé foi exemplo de força e luta para o povo brasileiro, em especial para as mulheres, como destaca Janaína Marquesini, uma das autoras do livro Quelé, A Voz Da Cor, que conta a história da mulher que atravessou décadas de samba.

“Além da Clementina representar essa riqueza cultural tão grande, ela ainda traz em sua história todas as dificuldades de ser mulher no Brasil e, além disso, ela ainda era negra e pobre. Ela carrega a verdade e a essência do povo mestiço e negro e tudo o que o Brasil é”, diz.

O estilo de samba de Quelé era o partido-alto, cantado em forma de desafio e de improviso. Partideira de mão cheia, Clementina de Jesus imprimiu em suas canções a luta contra a discriminação racial e o machismo, se tornando uma das maiores referências da música popular brasileira, como ressalta Magnu Sousá, integrante da dupla de irmãos sambistas Prettos.

“Imagine uma mulher nos anos 1970, pensando na probabilidade de 80% de machismo no Brasil, e principalmente dentro do ambiente do samba, cantar ‘Não vadeia Clementina, fui feita pra vadiar’, comenta.

Magnu se define como um “neto da geração Clementina de Jesus”, já que ela se tornou influência no repertório e nas ideias do artista. “A Clementina é a artista idosa mais pop do Brasil. Pop de moderno, de novo, de vanguarda e pop de popular. Eu digo é porque o artista não morre, ele é eterno. Ela [Clementina] está presente na vida de todos nós brasileiros, principalmente dos que amam o samba, que carregam a bandeira do samba e os que são adeptos, simpatizantes do gênero.”

A partir daí, Clementina de Jesus resgatou o conhecimento de seus antepassados e apresentou a cultura africana com a gravação de 13 LPs e participações em álbuns com grandes nomes da música popular brasileira, como Clara Nunes e Milton Nascimento.

Rainha Quelé, como ficou conhecida Clementina de Jesus, criou as filhas sozinha e trabalhou como empregada doméstica até o começo da vida artística. Negra, idosa e pobre, Quelé foi exemplo de força e luta para o povo brasileiro, em especial para as mulheres, como destaca Janaína Marquesini, uma das autoras do livro Quelé, A Voz Da Cor, que conta a história da mulher que atravessou décadas de samba.

“Além da Clementina representar essa riqueza cultural tão grande, ela ainda traz em sua história todas as dificuldades de ser mulher no Brasil e, além disso, ela ainda era negra e pobre. Ela carrega a verdade e a essência do povo mestiço e negro e tudo o que o Brasil é”, diz.

O estilo de samba de Quelé era o partido-alto, cantado em forma de desafio e de improviso. Partideira de mão cheia, Clementina de Jesus imprimiu em suas canções a luta contra a discriminação racial e o machismo, se tornando uma das maiores referências da música popular brasileira, como ressalta Magnu Sousá, integrante da dupla de irmãos sambistas Prettos.

“Imagine uma mulher nos anos 1970, pensando na probabilidade de 80% de machismo no Brasil, e principalmente dentro do ambiente do samba, cantar ‘Não vadeia Clementina, fui feita pra vadiar’, comenta.

Leia mais:
Biografia – Dercy Gonçalves: da infância pobre ao reconhecimento como estrela nacional

Magnu se define como um “neto da geração Clementina de Jesus”, já que ela se tornou influência no repertório e nas ideias do artista. “A Clementina é a artista idosa mais pop do Brasil. Pop de moderno, de novo, de vanguarda e pop de popular. Eu digo é porque o artista não morre, ele é eterno. Ela [Clementina] está presente na vida de todos nós brasileiros, principalmente dos que amam o samba, que carregam a bandeira do samba e os que são adeptos, simpatizantes do gênero.”

Com o passar dos anos, Quelé se tornou símbolo da negritude no Brasil. Para uma das escritoras da biografia, conhecer Clementina é entender um pouco da formação do povo brasileiro. “É preciso mostrar mais uma vez a importância das nossas raízes, da identidade e formação cultural do nosso país, que foi construído por mãos negras. A história dela [Clementina] nos ajuda a fazer esse reconhecimento de como nós chegamos até aqui.”

Em sete de fevereiro deste ano, Clementina de Jesus completaria 117 anos. Mulher vitoriosa, desafiou toda a cultura do samba estabelecendo uma ponte entre o folclore dos terreiros de candomblé e a música contemporânea.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *