Foz do Iguaçu, PR – Três décadas depois da ocupação de um dos maiores latifúndios do Sul do Brasil, a luta pela terra no Oeste do Paraná segue viva — não apenas como memória, mas como prática cotidiana de resistência, produção e organização popular.

Pesquisadores da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) participaram, nesta semana, das atividades que marcam os 30 anos das ocupações que deram origem aos assentamentos Ireno Alves dos Santos e Marcos Freire, territórios construídos a partir da mobilização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Mais do que uma celebração, o encontro reafirmou o papel histórico da reforma agrária como instrumento de transformação social e enfrentamento às desigualdades no campo.

A origem dessa história remonta a abril de 1996, quando milhares de famílias ocuparam o latifúndio da empresa Giacomet-Marodin, em uma das maiores ações do MST no país. Foram cerca de 12 mil pessoas organizadas em acampamento, enfrentando repressão, violência e anos de incerteza até a conquista da terra .

Dessa ocupação nasceram os assentamentos que hoje abrigam milhares de famílias e se consolidaram como um dos maiores projetos de reforma agrária da América Latina .

Estudantes da UNILA participam de atividade em assentamentos do MST. Foto: Divulgação.

Mas a conquista da terra não encerrou a luta — ela apenas mudou de forma

Ao longo desses 30 anos, o MST estruturou nos assentamentos um modelo que vai além da produção agrícola. Educação, organização comunitária, cooperativismo e soberania alimentar passaram a integrar o cotidiano das famílias, transformando o território em espaço de vida, não apenas de produção.

Foi nesse contexto que ocorreu o encontro com a UNILA. Estudantes de diferentes países da América Latina — Venezuela, Paraguai, Honduras, Cuba, Haiti, Colômbia e Brasil — participaram das atividades, reforçando o caráter internacional da universidade e sua conexão com as lutas populares do continente.

Recebidos pelas famílias assentadas, os estudantes conheceram áreas de produção, dialogaram com formadores do movimento e participaram de atividades no Centro de Pesquisa e Memória Terra e Povo, espaço que preserva a história da luta pela terra e projeta novos caminhos de formação política.

A visita faz parte da disciplina “A Questão Agrária na América Latina” e integra uma proposta pedagógica que conecta teoria e realidade — algo que, no caso da reforma agrária, significa compreender que a disputa pela terra é também uma disputa por dignidade, direitos e projeto de país.

Assentamentos marcam três décadas de resistência e organização no campo. Foto: Divulgação.}

Segundo o professor da UNILA, José Renato Vieira Martins, responsável pela disciplina, a experiência ampliou o sentido da formação acadêmica ao aproximar os estudantes da realidade do campo:

“Foi nesse contexto que ocorreu o encontro com a UNILA. A experiência colocou em diálogo estudantes de diferentes países, culturas e realidades do continente, conectando a formação acadêmica às lutas concretas do campo e à história viva da reforma agrária.”

Se, por um lado, os assentamentos Ireno Alves dos Santos e Marcos Freire representam uma vitória histórica do MST, por outro, revelam que a questão agrária no Brasil segue longe de ser resolvida.

Centenas de famílias ainda vivem em acampamentos na região, como “Herdeiros da Terra de 1º de Maio” e “Dom Tomás Balduino”, aguardando a regularização das áreas — uma espera que, em muitos casos, já ultrapassa anos.

A possibilidade de uma visita do presidente Lula à região reacende a expectativa por avanços concretos, mas também expõe a lentidão histórica da política de reforma agrária no país.

Encontro reuniu comunidade, universidade e movimento social em defesa da reforma agrária. Foto: Divulgação.

O que os 30 anos mostram é que a luta pela terra nunca foi apenas sobre acesso ao território. Trata-se de enfrentar a concentração fundiária, um dos pilares das desigualdades brasileiras, e garantir que a terra cumpra sua função social.

Nesse sentido, o MST segue sendo um dos principais atores políticos dessa disputa. Organizado desde os anos 1980, o movimento atua na redistribuição de terras improdutivas e na construção de um modelo de produção baseado na agricultura familiar e na cooperação.

Encontro reforçou o papel do MST na organização do campo e na conquista de direitos. foto: Divulgação.

Ao completar 30 anos, a reforma agrária no Oeste do Paraná não se resume a um marco histórico. Ela segue sendo um processo em disputa — entre modelos de desenvolvimento, entre projetos de sociedade e entre quem produz a terra e quem concentra o poder sobre ela.

Mais do que celebrar, o momento aponta para o que ainda está por vir. Porque, como mostram as famílias assentadas, a luta pela terra continua sendo, sobretudo, uma luta pela vida.

“Unidade para resistir, ousadia para avançar!”: Três décadas de luta marcam a trajetória dos assentamentos no Oeste do Paraná. Foto: Divulgação.]
Com participação de estudantes estrangeiros, visita reforça caráter latino-americano da UNILA. Foto: Divulgação.
Atividade fortalece integração entre universidade e movimentos sociais. Foto: Divulgação.
Atividade extraclasse leva estudantes ao território da reforma agrária e amplia compreensão sobre o MST. Foto: Divulgação.

 

 

https://webapp412267.ip-45-33-11-209.cloudezapp.io/fronteira/locro-vai-alem-da-culinaria-e-expoe-a-historia-de-resistencia-na-america-latina