Foz do Iguaçu, PR – Em um território onde fronteiras não são apenas geográficas, mas também sociais, econômicas e institucionais, mulheres da Tríplice Fronteira levaram diretamente ao governo federal uma cobrança urgente: o enfrentamento à violência de gênero precisa considerar as especificidades da região. Nesta quarta-feira (22), as Promotoras Legais Populares da Fronteira (PLPs) da Fronteira entregaram uma carta à ministra das Mulheres, Márcia Lopes, durante encontro realizado na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA).
O documento reúne denúncias e aponta lacunas históricas nas políticas públicas voltadas às mulheres que vivem em cidades de fronteira, onde a circulação intensa de pessoas, a desigualdade social e a fragilidade de redes institucionais ampliam riscos e vulnerabilidades. Entre os principais pontos levantados estão o tráfico de mulheres e meninas, a exploração de trabalho, a precarização da vida de migrantes e a dificuldade de acesso à justiça e aos serviços de proteção.
Representantes do coletivo destacaram que a realidade da fronteira exige mais do que políticas genéricas. É necessário reconhecer um cenário marcado por múltiplas violências, onde mulheres indígenas, negras, migrantes, trabalhadoras informais e periféricas enfrentam camadas sobrepostas de exclusão.

A leitura da carta foi conduzida por Jaqueline Aranduha, liderança indígena Guarani Kaiowá, uma das vozes mais relevantes na defesa dos direitos dos povos originários no Brasil. A participação dela reforçou o peso político do documento e evidenciou que a violência de gênero na fronteira também atravessa questões étnicas, territoriais e históricas.

Também presente no encontro, Ana Carolina Fiori participou da entrega do documento à ministra, que recebeu ainda uma caneca das Promotoras Legais Populares como gesto simbólico do coletivo, marcando o momento de diálogo entre os movimentos da fronteira e o governo federal.
A agenda da ministra na cidade incluiu um espaço de escuta com movimentos sociais, também realizado na UNILA, que reuniu mais de uma dezena de falas de coletivos e organizações locais. As intervenções trouxeram relatos diretos de quem vive o cotidiano da violência e reforçaram a necessidade de políticas públicas integradas, com atuação que ultrapasse limites municipais e nacionais.
A professora da UNILA e coordenadora do projeto Promotoras Legais Populares da Fronteira, Danielle Araújo, destacou o peso simbólico do local escolhido para o encontro:
“A escolha do Auditório Martina Piazza carrega um significado que atravessa esse debate. Martina foi vítima de feminicídio, e manter essa memória ativa é reconhecer que a violência contra as mulheres não é uma estatística distante — ela está presente aqui, na nossa cidade. Falar de políticas públicas também é falar de vidas que foram interrompidas e de outras que precisam ser protegidas.”
A presença da ministra das Mulheres na cidade ocorre em um momento em que o Brasil ainda registra índices elevados de violência de gênero. Dados nacionais apontam crescimento de casos de feminicídio e violência doméstica nos últimos anos, cenário que se agrava em regiões de fronteira, onde a atuação do Estado muitas vezes não acompanha a complexidade dos fluxos e das dinâmicas locais.
Na Tríplice Fronteira, esse contexto se intensifica. A circulação entre Brasil, Paraguai e Argentina cria um ambiente onde redes de exploração e violência podem se estruturar com mais facilidade, enquanto o acesso a políticas públicas permanece fragmentado. Para as PLPs, enfrentar essa realidade passa necessariamente por cooperação internacional, fortalecimento da rede de proteção e investimento contínuo em políticas específicas para o território.
A visita de Márcia Lopes — ministra das Mulheres — também incluiu a Aula Magna “Todos por todas: o combate à violência contra as mulheres”, realizada na própria universidade, ampliando o debate para o campo acadêmico e institucional. A agenda reforça a tentativa de aproximar governo, universidade e sociedade civil em torno de uma pauta que, na fronteira, não pode mais ser tratada como periférica.
A entrega da carta, no entanto, deixa um recado claro: escutar é o primeiro passo, mas não suficiente. Na fronteira, a urgência é por ação.
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