Grilagem de terras indígenas: PF desencadeia operação no Piauí e Paraná

Grilagem de terras indígenas: PF desencadeia operação no Piauí e Paraná

Grilagem em território reivindicado pelos Akroá-Gamella de Uruçuí e Guegue do Sangue tem distribuição de placas com nomes e telefones dos beneficiados. Foto: Comunidade Akroá-Gamella
WhatsApp
Telegram
Facebook
Email
LinkedIn

A Polícia Federal (PF) deflagrou, na manhã de quarta-feira (19), a Operação Aldeia Verde, com ações em Piauí e Paraná para desarticular uma quadrilha acusada de grilagem de terras pertencentes aos povos indígenas Akroá-Gamella e Guegue do Sangue. A operação resultou em prisões e na execução de mandados de busca e apreensão.

De acordo com as investigações, o grupo criminoso era composto por empresários, agentes públicos e corretores de imóveis que utilizavam falsos posseiros para adquirir terras indígenas a preços significativamente inferiores aos de mercado. Esses intermediários, que atuavam como “laranjas”, participavam de processos forjados no Instituto de Terras do Piauí (Interpi).

A PF destacou que documentos eram falsificados para a venda ilegal de terras da União, incluindo áreas de proteção ambiental. Desde 2018, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) já havia iniciado procedimentos demarcatórios nas regiões afetadas.

Famílias de posseiros chegam ao território indígena gerando tensão, ameaças e ataques aos Akroá-Gamella. Foto: Divulgação/Comunidade Akroá-Gamella

Contexto do Crime

Informações do Ministério Público Federal (MPF) do Piauí revelaram que episódios de grilagem se intensificaram durante o período eleitoral, culminando em ameaças de morte e conflitos nas comunidades indígenas. O MPF instaurou o inquérito que deu origem à operação, com mandados de prisão e busca em várias cidades, incluindo Teresina e Maringá.

As investigações, iniciadas em 2022, revelaram que o grupo invadiu cerca de 6.600 hectares de terras tradicionalmente ocupadas pela etnia indígena Akroá-Gamella. A quadrilha também forneceu armas para invasores que atuavam sob sua direção, como parte de uma estratégia para proteger as áreas ocupadas.

Flagrande de desmatamento do Cerrado e o início da construção de casas em área grilada do território em processo de identificação e delimitação pela Funai desde 2018. Foto: Comunidade Akroá-Gamella do Uruçuí

Funcionamento do Esquema

Os intermediários do esquema identificavam terras devolutas e procuravam empresários do agronegócio dispostos a adquirir essas áreas. Utilizando recursos obtidos por meio dessas transações, cooptavam trabalhadores rurais, incluindo indígenas, oferecendo dinheiro e outros benefícios para garantir a ocupação das terras.

Para legitimar as invasões, os posseiros emitiam procurações que permitiam aos intermediários representar seus interesses junto aos órgãos públicos. A investigação do MPF aponta que a quadrilha pagava propina a funcionários do Interpi e utilizava métodos fraudulentos para obter certidões de regularização das terras.