CURITIBA | PR – Uma história que une o acaso à preservação da memória cultural brasileira será celebrada na próxima quarta-feira, 18 de março. A Biblioteca Pública do Paraná (BPP) sedia a solenidade de entrega de materiais inéditos do escritor Paulo Leminski à sua família. Os documentos, que atravessaram 44 anos no anonimato, foram esquecidos pelo poeta em uma aeronave em 1982 e guardados desde então por um ex-gerente da companhia Varig.
O achado: Da poltrona de voo à preservação histórica
O episódio ocorreu durante uma viagem de rotina entre Curitiba e São Paulo. Na ocasião, Leminski deixou na poltrona do avião um envelope contendo o que seriam as sementes de futuros versos e reflexões intelectuais. O material foi encontrado por Ernani Edson de Paula, que preservou os escritos por quatro décadas sem plena dimensão do valor histórico que possuía. Recentemente, sua filha, Caroline de Paula, identificou os manuscritos e buscou o apoio do jornalista Célio Martins para validar a autenticidade junto a Alice Ruiz e às filhas do poeta.
Bastidores da criação e raridades inéditas
O acervo não se resume a textos finalizados, mas oferece um vislumbre raro do “processo de escrita” de Leminski. O envelope contém poemas, anotações diversas, rascunhos manuscritos e datilografados. Entre as raridades, destaca-se a tradução para o inglês da canção “Esotérico”, de Gilberto Gil, demonstrando a atuação do curitibano como tradutor e letrista. Como prova material daquele dia de 1982, o cartão de embarque original ainda repousa entre as páginas guardadas.
“Os achados são um ‘processo de escrita’ de Leminski, coisas que ele escreveu e não publicou, porém obviamente importantes para o histórico literário”, afirmou a filha do escritor, Aurea Leminski.
“O envelope mostra o jeito de produzir dele, um pouco de tudo, música, poesia, ideias, tudo ao mesmo tempo. Vai ser importante para o acervo, para a memória cultural brasileira, além de ser uma história muito curiosa”, destacou a escritora e compositora Estrela Leminski.
Relevância cultural na Biblioteca Pública
Para Luiz Felipe Leprevost, diretor da BPP, receber este evento é simbólico, visto que Leminski era um frequentador assíduo da instituição. O resgate ocorre justamente no mês em que a Biblioteca completa 169 anos. O jornalista Célio Martins reforça que achados originais de figuras centrais da literatura são acontecimentos incríveis que não podem permanecer no anonimato.
A solenidade de entrega ocorrerá no auditório da instituição e parte do material ficará em exposição para o público paranaense até o final do mês de março, permitindo que os leitores conheçam os registros que “viajaram” no tempo por mais de 40 anos.
Paulo Leminski, o Samurai das Palavras
Paulo Leminski não era apenas um poeta; era um fenômeno cultural que transitava com a mesma naturalidade entre os haicais japoneses e os tatames de judô. Faixa preta na vida e na escrita, o curitibano iniciou sua trajetória literária em 1964, na revista Invenção, sob a influência direta do concretismo. Sua estreia na prosa ocorreu em 1975 com Catatau, uma obra experimental que ele definiu como um “romance-ideia”, onde imaginava o filósofo René Descartes em pleno solo pernambucano no século 17.
Expoente da poesia marginal da década de 1970, Leminski lapidou um estilo que hoje é precursor da linguagem direta das redes sociais. Seus versos eram curtos, irônicos e carregados de trocadilhos, gírias e ditados populares. Por trás da aparente simplicidade, escondia-se um erudito capaz de traduzir gigantes como James Joyce, Samuel Beckett e Bashô, além de compor sucessos para nomes como Caetano Veloso e Arnaldo Antunes.
Multiartista por natureza, Leminski foi também jornalista, publicitário, professor e crítico literário. Sua versatilidade rendeu-lhe o Prêmio Jabuti de Poesia em 1995, pelo livro Metamorfose. O “Samurai”, que sempre amou a juventude e declarou em um de seus últimos bilhetes nunca ter tido interesse em envelhecer, partiu em 1989, mas deixou um legado que permanece pulsante na memória cultural brasileira — e que agora ganha novas páginas com o resgate desses manuscritos inéditos.
“Nunca estive muito interessado em envelhecer, eu que sempre amei a juventude”, escreveu Paulo Leminski em um bilhete pouco antes de sua morte, em 1989.
Serviço:
Solenidade de entrega dos escritos de Paulo Leminski à família
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Data: 18 de março, quarta-feira
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Horário: A partir das 17h30
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Local: Auditório da BPP (2º andar) – Curitiba/PR
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Endereço: Rua Cândido Lopes, 133 – Centro
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