A disputa entre supermercados e farmácias no Brasil ganhou novos contornos esta semana, com a proposta de permitir a venda de medicamentos sem prescrição médica nas redes de varejo alimentar. A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) sugeriu a medida ao governo, buscando alternativas para baratear preços nas lojas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou interesse na proposta durante um encontro em 21 de novembro.

Temor nas farmácias

Farmácias expressam preocupação com a possibilidade de a medida ser aprovada com urgência, já que há 11 projetos de lei relacionados ao tema tramitando na Câmara dos Deputados. Na quinta-feira (23), representantes de ambos os setores se reuniram com deputados para defender suas posições. Para as farmácias, o principal receio é que a venda de medicamentos em supermercados comprometa a segurança e a orientação ao consumidor, uma vez que as farmácias são obrigadas a ter profissionais farmacêuticos para oferecer aconselhamento.

O médico Drauzio Varella se manifestou contra a proposta em um vídeo, apoiado pela Abrafarma, que representa as farmácias. Varella destacou a importância do controle na venda de medicamentos, alertando que a liberalização poderia trazer riscos à saúde. “Quantos anos levamos para pôr ordem nesse mercado?”, indagou.

Argumentos dos supermercados

Os supermercados defendem que a venda de remédios poderia aumentar a concorrência e, consequentemente, reduzir os preços. Eles alegam que a inclusão de medicamentos nas prateleiras poderia gerar novas vendas e melhorar a lucratividade, refletindo também na precificação dos alimentos.

Embora a venda de medicamentos esteja crescendo mais rapidamente do que a de alimentos no país, as margens de lucro entre os dois setores não são significativamente diferentes. A Raia Drogasil, líder no setor farmacêutico, registrou margens líquidas de 3,4% no terceiro trimestre, enquanto o Grupo Mateus, um dos maiores supermercados, alcançou 4,5%.

Reações e críticas

Na quinta-feira, a Abras criticou a resposta da Abrafarma, considerando seu tom agressivo. Em manifestação anterior, a Abrafarma havia afirmado que a proposta seria desastrosa para o setor farmacêutico e que não seria responsável pela inflação dos medicamentos, uma vez que os preços são definidos pelo governo.

A Abras contestou a posição das farmácias, lembrando que elas já realizam vendas online e entrega em domicílio de medicamentos sem receita. Além disso, se comprometeram a contratar farmacêuticos para atender em suas lojas, enquanto a Abrafarma foi acusada de defender a reserva de mercado.

Um relatório do Itaú BBA, divulgado recentemente, aponta que a proposta pode não apenas ser ineficaz, mas também prejudicial à saúde. O banco acredita que as redes de supermercados não repassariam necessariamente os lucros aos consumidores, desafiando a lógica de que a medida poderia ajudar na redução da inflação de alimentos.

O debate sobre a venda de medicamentos em supermercados levanta questões complexas sobre saúde pública, regulamentação do setor e o impacto nos preços. Com os interesses de supermercados e farmácias em jogo, a discussão promete se intensificar nas próximas semanas.