O Supremo Tribunal Federal (STF) exibiu vídeos dos ataques de 8 de Janeiro durante o julgamento que avaliará a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Jair Bolsonaro e outros sete envolvidos na trama golpista. A estratégia de apresentar essas gravações, adotada pelo ministro Alexandre de Moraes, lembra a abordagem utilizada por um comitê do Congresso dos Estados Unidos que investigou a invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021, instigada por Donald Trump.

Os vídeos mostraram os ataques à sede da Polícia Federal em 12 de dezembro de 2022, horas após a diplomação de Luiz Inácio Lula da Silva, uma tentativa de explosão de um caminhão-bomba nas proximidades do aeroporto de Brasília na véspera do Natal e a invasão dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, após a posse de Lula.

“Temos a tendência de ir esquecendo”, justificou Moraes antes de exibir um vídeo de cinco minutos. “A materialidade exige violência ou grave ameaça, e aqueles que se esqueceram, de boa ou má-fé, que houve violência gravíssima contra pessoas vão se recordar agora.”

No comitê americano, que desempenha funções semelhantes às comissões parlamentares de inquérito (CPI) no Brasil, vídeos foram mostrados em várias sessões para reconstruir a cronologia dos eventos em que apoiadores de Trump tomaram o Capitólio enquanto senadores confirmavam a vitória de Joe Biden.

Durante a invasão, Trump pressionou seu vice, Mike Pence, a sabotar a votação do colégio eleitoral, e, em um discurso a seus apoiadores, os instigou a “marcharem” até o Capitólio, advertindo: “Se vocês não lutarem até o fim, nós não teremos mais um país”.

Enquanto no STF os vídeos foram utilizados para reforçar a gravidade dos ataques de 8 de janeiro, no comitê americano, a exibição visava atribuir responsabilidades aos envolvidos. Centenas de horas de gravações foram analisadas pelo colegiado, que detalhou a invasão e os atos de violência contra policiais.

O comitê concluiu que os invasores se aproximaram perigosamente de Pence, com gritos de “enforquem Pence!” sendo ouvidos. Após a invasão, Trump hesitou em mobilizar forças policiais e só o fez sob forte pressão política e militar.

O relatório final do comitê responsabilizou Trump pela invasão ao Capitólio. Em 2021, ele enfrentou impeachment por insurreição, mas foi absolvido no Senado. Após ser reeleito em 2024, Trump perdoou os condenados pelo ataque e retaliou membros do comitê, incluindo Liz Cheney, uma crítica proeminente do trumpismo.

No Brasil, a celeridade do julgamento de Bolsonaro no STF é vista como um esforço para evitar um cenário de revanchismo político similar ao dos EUA após o retorno de Trump à Casa Branca. Nos bastidores, tanto bolsonaristas quanto apoiadores do governo Lula acreditam que Moraes e seus aliados estão trabalhando para barrar uma anistia ampla ao 8 de janeiro e manter Bolsonaro, inelegível até 2030, fora das eleições do próximo ano.