Coronel Sapucaia (MS) – O tekoha Kurusu Amba, território sagrado no cone sul de Mato Grosso do Sul, foi palco do Encontro de Rezadores e Rezadoras Guarani e Kaiowá – Nhanderu Ñamói Aty Guasu, realizado entre os dias 6 e 9 de agosto. O evento reuniu cerca de 200 participantes, entre anciãos, jovens, crianças, lideranças espirituais e apoiadores, reafirmando a importância da espiritualidade na resistência política e cultural do povo.

O encontro ocorreu em um contexto de ataques a casas de reza e perseguições à religiosidade Guarani e Kaiowá por igrejas neopentecostais. Mais do que um espaço de celebração, foi também um ato de afirmação de direitos e de fortalecimento da luta pela demarcação de territórios.

Logo na abertura, o momento central foi o plantio da erva-mate, considerado símbolo de comunhão entre os povos.

“A planta sagrada da erva-mate foi o ponto de comunhão: ao redor dela, os Guarani e Kaiowá rememoram as histórias de luta pelo território”.

O anfitrião Nhanderu Leonel conduziu o batismo da erva-mate e ensinou os cuidados necessários para que a planta cresça vigorosa. Outros rezadores, como Nhanderu Emiliano, relembraram rituais e o uso de plantas de cura.

Resistência e memória

Durante o encontro, mulheres Guarani e Kaiowá compartilharam suas histórias de enfrentamento à violência no campo, relembrando marcas físicas e espirituais deixadas pelos conflitos. “Com o maracá na mão e muita reza, resistimos às balas”, afirmaram.

Ao cair da noite, fogueiras aqueceram os participantes, que entre cantos, danças e rezas, mantiveram viva a memória ancestral. Crianças corriam e brincavam, enquanto os mais velhos contavam histórias e celebravam a união entre gerações.

“Nós somos as que sopram o amanhecer”, diz canto das mulheres Guarani e Kaiowá.

Outro momento marcante foi o batismo tradicional de uma criança (mitã karai). Várias gerações se reuniram ao redor dela em um ritual que evocava os pássaros como mensageiros espirituais.

“As rezas chamavam o pássaro para que repousasse sobre a criança para então lhe dar o nome”.

Sonho da Terra Sem Males

O encontro foi definido pelos participantes como uma oportunidade de reforçar o sonho coletivo da Terra Sem Males, transmitido de geração em geração.

“Um longo caminho percorrido pelos passos firmes de homens, mulheres, jovens e crianças, que há séculos mantêm em suas mãos o sonho da Terra Sem Males”.

Esse sonho se materializa nas retomadas de terras, na autodemarcação e no cultivo de roças tradicionais livres de agrotóxicos, que devolvem a biodiversidade e a vida às áreas degradadas pela monocultura.

Espiritualidade e política

Para os Guarani e Kaiowá, a espiritualidade não está separada da luta política. O encontro reafirmou que a defesa da terra, a preservação da cultura e a resistência contra o avanço da violência dependem do fortalecimento da fé e da tradição.

Instituições e movimentos sociais acompanharam a atividade, como a Defensoria Pública do Estado (Nupir), Funai, Sesai, DSEI-MS, Aty Guasu, além de organizações parceiras como Cimi, CPT, MST, MPA, Instituto Federal do MS e Instituto Terra sem Males. Professores e estudantes da Escola da Aldeia Takuapery também estiveram presentes.

Para os participantes, o encontro simbolizou a continuidade da luta e da espiritualidade, reafirmando que o povo Guarani e Kaiowá seguirá defendendo seu tekoha e mantendo viva a ligação com a Mãe Terra.