Foz do Iguaçu–PR – Reunidos na cúpula do Mercosul, em Foz do Iguaçu, os presidentes dos países do bloco reafirmaram a aposta no acordo comercial com a União Europeia, mesmo após o adiamento da assinatura, que era esperada para este sábado (20). O encontro, no entanto, escancarou divergências internas profundas, tanto sobre a política comercial do Mercosul quanto sobre a crise na Venezuela e o papel das potências internacionais na região.
O acordo Mercosul–União Europeia, negociado há mais de 26 anos, não foi firmado devido às disputas internas no bloco europeu, especialmente ligadas à proteção agrícola. Apesar disso, os chefes de Estado concordaram em aguardar uma definição da União Europeia, com expectativa de que a assinatura possa ocorrer em janeiro, possivelmente no dia 12, já sob a presidência pro tempore do Paraguai.
Mesmo diante da frustração, nenhum dos presidentes retomou publicamente o ultimato anteriormente aventado por alguns líderes — entre eles o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva — de abandonar o acordo caso não houvesse avanço imediato.
Divergências sobre Venezuela expõem fraturas políticas
As diferenças políticas entre os governos ficaram mais evidentes ao tratar da crise na Venezuela. Lula fez um alerta contundente contra qualquer hipótese de intervenção armada no país vizinho, afirmando que isso representaria uma “catástrofe humanitária” e um precedente perigoso para a América do Sul.
“Passadas mais de quatro décadas desde a Guerra das Malvinas, a América do Sul volta a ser ameaçada pela presença militar de uma potência extrarregional. Uma intervenção armada na Venezuela seria uma catástrofe humanitária para o hemisfério e um precedente perigoso para o mundo”, afirmou o presidente brasileiro, defendendo que a região siga comprometida com a paz.
Na direção oposta, o presidente da Argentina, Javier Milei, defendeu que o Mercosul apoie a pressão militar exercida pelos Estados Unidos contra o governo de Nicolás Maduro. Em tom duro, Milei pediu uma posição explícita do bloco contra o regime venezuelano.
“A Argentina saúda a pressão dos Estados Unidos para libertar o povo venezuelano. O tempo de uma postura tímida se esgotou. Instamos os demais membros do Mercosul a secundar essa posição e condenar de forma contundente esse experimento autoritário”, declarou.
Debate sobre flexibilização do Mercosul volta à mesa
Outro ponto de tensão foi a insistência de Argentina e Uruguai para que o Mercosul flexibilize suas regras e permita que os países negociem acordos comerciais de forma individual com terceiros. O Uruguai já avançou nesse caminho ao aderir ao acordo transpacífico CPTPP, movimento visto com reservas por outros membros do bloco.
Milei atribuiu diretamente o atraso no acordo com a União Europeia ao modelo atual do Mercosul. “A experiência demonstra que quando o Mercosul tenta avançar de maneira monolítica, os processos se dilatam e as oportunidades se perdem. O acordo com a União Europeia é um exemplo claro dessa lentidão”, afirmou.
Apesar das críticas, os presidentes concordaram em manter o Mercosul unido nas negociações com a União Europeia, ao mesmo tempo, em que avançam em tratativas com outros parceiros internacionais.
Novos acordos e expansão da agenda externa
Enquanto aguardam a definição europeia, os países do Mercosul decidiram acelerar negociações com outros mercados. Foram citados como prioritários Emirados Árabes Unidos, Canadá, Japão, Reino Unido, Indonésia e Malásia. Ao final da cúpula, o bloco anunciou oficialmente o início das negociações para um acordo de preferências tarifárias com o Vietnã.
Lula afirmou que há uma demanda crescente por acordos com o Mercosul. “Há muitos países ávidos por firmar parcerias conosco, e espero que alguns desses acordos sejam assinados nos próximos meses”, disse.
O presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, expressou “desilusão” com o adiamento do acordo com a União Europeia, mas reforçou que o país seguirá aguardando a conclusão dos trâmites internos do bloco europeu.
Já o presidente do Paraguai, Santiago Peña, que assumiu neste sábado a presidência pro tempore do Mercosul, defendeu uma postura mais pragmática. “Seguiremos esperando no altar, mas não podemos esperar apenas pela União Europeia. Há muitos países e regiões onde estamos mais próximos de um acordo”, afirmou.
Apesar das divergências, a cúpula confirmou consensos importantes, como a criação da Comissão Mercosul para o Combate ao Crime Organizado Transnacional, considerada um passo relevante para a cooperação regional em segurança pública.