Juiz de Fora, MG – A rápida mobilização do Governo Federal nos primeiros dias após as fortes chuvas que atingiram a Zona da Mata mineira fortaleceu as redes de saúde e assistência social nos municípios afetados. Equipes da Força Nacional do Sistema Único de Saúde (FN-SUS), da Força de Proteção do Sistema Único de Assistência Social (ForSUAS) e da Defesa Civil Nacional foram deslocadas para a região ainda nas primeiras horas após a tragédia.
Morador de Juiz de Fora, Tarcilio Domingos da Silva viveu momentos de tensão na noite em que as chuvas atingiram a cidade. Ele comemorava um novo emprego quando a tempestade mudou completamente o cenário.
“Escutei um estalo lá em cima na ponta do morro, um barulho descendo e já saí correndo pra fora. Quando cheguei, já dei de cara com a avalanche que me cobriu, me arrastou e foi me levando ‘embolando’ no barro. Eu agarrei no pé de limão que tinha lá e levei quase uma hora pra sair, porque era muito barro. Quanto mais você mexia, mais descia”, relatou.

Após conseguir escapar ao se segurar em um limoeiro, Tarcilio procurou atendimento em uma unidade de saúde na zona norte da cidade para tratar um ferimento na perna. Em seguida, foi encaminhado para um abrigo montado na Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves, com apoio direto das equipes da ForSUAS, enviadas para apoiar os municípios atingidos pelas chuvas do dia 23 de fevereiro.
A região inicia agora um processo de reconstrução que deve se estender por meses, mas que conta com a presença de equipes federais desde o dia seguinte ao desastre.
As equipes da ForSUAS, mobilizadas pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), reúnem profissionais especializados em assistência social que atuam em cooperação com estados e municípios nas etapas de preparação, resposta e recuperação diante de eventos extremos.
Em articulação com a assistência social, o Ministério da Saúde também enviou equipes da Força Nacional do SUS e do Departamento de Emergências em Saúde Pública. Médicos, enfermeiros, psicólogos e especialistas em logística prestam apoio à gestão municipal e atendimento direto à população afetada, com atenção especial ao cuidado em saúde mental.
Nos abrigos emergenciais, os recursos federais permitem a compra de alimentos, água, colchões, roupas e produtos de higiene, além da contratação de equipes de apoio e aluguel de imóveis e veículos para deslocamento de usuários e profissionais.
A Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves foi transformada em abrigo temporário para famílias atingidas.
“Estou aqui desde segunda-feira e fui muito bem recebido, graças a Deus. Não está faltando nada. Cheguei sem nada, só com a roupa do corpo, cheio de barro e já tenho roupa, tênis, tudo. A comida aqui é excelente e pode comer quantas vezes quiser, independente da quantidade de pessoas, que não vai faltar para as outras”, afirmou Tarcilio.

Beneficiário do Bolsa Família, ele destacou que a unificação do calendário de pagamentos em março, com liberação no primeiro dia do cronograma, facilita o acesso ao recurso neste momento de vulnerabilidade.
“Vai ser uma maravilha, vai me ajudar porque eu já posso começar a comprar umas coisas a mais que eu não posso ter aqui. Eu tenho filha e posso mandar as coisas pra ela e para minha mãe também, que ficou sem casa e está morando na casa de parentes. Eu posso mandar uma cesta, assim como fazem aqui no abrigo”, disse.
Além da antecipação do Bolsa Família, a Previdência Social também iniciou procedimentos para antecipar benefícios a moradores de cidades atingidas.
Reconstrução e apoio federal
O abrigo na Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves foi visitado pela ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, um dia antes da chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à região, acompanhado por ministros.
Durante visita à sede da Prefeitura de Juiz de Fora, o presidente anunciou que o processo de reconstrução seguirá modelo semelhante ao aplicado após as enchentes no Rio Grande do Sul, com foco na assistência emergencial e na recuperação das cidades.

O MDS disponibiliza repasse emergencial de R$ 20 mil aos municípios para cada grupo de 50 pessoas desabrigadas acolhidas pelo poder público.
O agente de campo da ForSUAS Gabriel Miranda acompanha a rotina no abrigo desde sua instalação.
“A primeira equipe que chega faz toda a parte de levantamento, de observação e diagnóstico sócio-territorial. Os apoiadores e especialistas nos ajudam com a escuta qualificada, com o trabalho nos abrigos temporários e com a busca ativa nos locais mais atingidos para garantir que as famílias tenham acesso aos benefícios sociais neste momento difícil”, explicou.
Segundo ele, as equipes também realizam o cadastramento das famílias no Cadastro Único (CadÚnico) para acesso aos programas sociais federais.
“Nos abrigos temporários fazemos a acolhida de crianças, adolescentes, famílias, pessoas idosas e pessoas com deficiência, além do cadastramento das famílias para inserção nos benefícios sociais e nas propostas de cuidado”, acrescentou.

Miranda relatou que muitas famílias ainda tentam compreender a dimensão da tragédia.
“Algumas pessoas ainda estão tentando processar e entender melhor o que aconteceu. As coisas aconteceram muito rápido e muitas famílias tiveram que sair de casa. Algumas foram acolhidas por parentes ou vizinhos, mas quem não tinha para onde ir precisou ser direcionado para os abrigos”, disse.
Trauma e saúde mental
Entre as famílias acolhidas está a dona de casa Tainara Thomé Correia Valadão, grávida do segundo filho e mãe de três meninas. Na noite da tragédia, ela estava em casa com a filha mais velha quando a energia elétrica caiu.
“A sorte é que a gente não dormiu. Meu ex-cunhado gritou porque uma casa antes da minha partiu no meio com a queda de uma árvore e a gente correu para a vizinha. Foi a pior hora, porque desceu a avalanche e ilhou a gente dentro da casa dela. Ficamos de 23 horas até 6 horas esperando amanhecer para sair”, relatou.
Sem condições de alugar uma casa no momento, ela procurou o abrigo com os filhos.
“Eu estava sabendo que aqui estava abrigando gente e vim porque, infelizmente, eu não tenho para onde ir com meus filhos. Agora que o Bolsa Família vai cair antes, isso pode ajudar a gente a alugar uma casa”, afirmou.

A mãe também relata que a filha adolescente ainda apresenta sinais de trauma.
“A minha menina já conversou com duas psicólogas, mas ela ainda está muito assustada. Com qualquer barulhinho, ela não está dormindo direito. Mas, graças a Deus, meus filhos estão sendo bem assistidos aqui”, disse.
A psicóloga voluntária da Força Nacional do SUS, Larissa Barbosa Almeida, explica que o acompanhamento psicológico é fundamental após desastres climáticos.
“Assim que a gente chega ao município, a primeira conduta é fazer uma avaliação junto com a gestão local para identificar as necessidades. A Força Nacional do SUS está preparada para responder desde casos leves até situações mais graves”, afirmou.
Segundo ela, reações emocionais intensas são comuns nos primeiros dias após a tragédia.
“Nas primeiras horas e nos primeiros dias é normal sentir dificuldade para dormir, redução de apetite ou a sensação de que tudo parece um filme. Essas são reações esperadas. A maioria das pessoas consegue superar o trauma quando recebe apoio adequado”, explicou.
A orientação é manter contato com redes de apoio e buscar atendimento nas unidades de saúde caso os sintomas persistam.
“Seguir as recomendações oficiais, manter contato com pessoas próximas e buscar ajuda profissional quando necessário são passos importantes nesse processo”, disse.
Defesa Civil e recursos emergenciais
A atuação federal também ocorre por meio do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), responsável pela coordenação das ações da Defesa Civil Nacional.
Os primeiros planos de trabalho para assistência humanitária e restabelecimento de serviços foram aprovados para Juiz de Fora e Ubá. Estão previstos R$ 2,9 milhões para Juiz de Fora e R$ 482,4 mil para Ubá.
Equipes da Defesa Civil Nacional foram instaladas na Prefeitura de Juiz de Fora para apoiar a gestão municipal.
O secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Wolnei Wolff, explicou como ocorreu a mobilização.
“Mobilizamos equipes de engenheiros e geólogos e já na terça-feira conseguimos chegar à cidade com o ministro Waldez Góes. Fizemos reuniões com a prefeitura e com as equipes de defesa civil do município e do estado para iniciar os primeiros diagnósticos”, afirmou.
Segundo ele, a segunda etapa do trabalho envolve a elaboração de planos de assistência humanitária.
“É entender o que essas pessoas precisam: cesta básica, água, colchão, kits de limpeza. Também buscamos restabelecer as condições normais da população, com limpeza urbana e recuperação de pequenos danos em pavimentação, drenagem e encostas”, explicou.

Apoio de saúde e infraestrutura
A Força Nacional do SUS iniciou atendimento em Juiz de Fora no dia 25 de fevereiro, com reforço de equipes em Ubá e Matias Barbosa no dia seguinte.
Entre as ações estão atendimentos psicossociais, vacinação preventiva contra tétano e reorganização da rede de saúde local.
Uma carreta do programa Agora Tem Especialistas foi enviada para Juiz de Fora para ampliar a realização de exames de imagem, como tomografia e ultrassonografia.
Além das equipes de saúde e assistência social, o Governo Federal mobilizou técnicos do Ministério das Cidades para apoiar os municípios na elaboração de projetos de reconstrução e viabilização de moradias para as famílias afetadas.
O Ministério da Defesa também disponibilizou 423 militares, um helicóptero e viaturas para apoiar as operações de resgate, logística e atendimento à população atingida.

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