*Por Amilton Farias – Opinião
A tragédia ocorrida no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, é mais que um episódio de violência — é uma denúncia contra o colapso moral e político do modelo de segurança pública no Estado do Rio. Mais de 130 pessoas podem ter sido mortas, somando-se às 64 vítimas oficialmente contabilizadas — entre elas, quatro policiais — e aos mais de 60 corpos retirados pelos próprios moradores de uma área de mata, após a chamada Operação Contenção, realizada na terça-feira (28).
O que se viu foi uma ação militarizada e desastrosa, marcada pela ausência de planejamento, transparência e respeito aos direitos humanos. Os relatos vindos da comunidade — e amplamente documentados por vídeos e transmissões ao vivo — mostram o que o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. tentou ocultar: uma chacina em escala inédita, promovida em nome da “lei e da ordem”.
O silêncio cúmplice e a contradição no poder — O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, reagiu com indignação e cobrou explicações: “Manifestamos nossa solidariedade às famílias do Rio de Janeiro, que ontem viram inocentes – entre eles policiais – perderem suas vidas devido a uma ação policial mal planejada pelo governador Cláudio Castro. O crime organizado é um fenômeno nacional e até global, e não será vencido com improviso ou bravatas.”
O ministro ainda destacou que o governo federal não recebeu qualquer pedido formal de apoio do estado e defendeu a coordenação entre as forças de segurança:
“Nós propusemos ao Congresso Nacional uma PEC da Segurança Pública, que visa exatamente à integração das forças federais, estaduais e municipais. O compartilhamento de inteligência e ações coordenadas, planejadas antecipadamente — é isso que estamos precisando.”
A proposta, enviada ao Congresso em abril, fortalece o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e amplia o papel da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal em operações conjuntas. O texto, no entanto, enfrenta resistência de e foi reprovada pelos governadores bolsonaristas como Cláudio Castro, que alega “defesa da autonomia dos estados”.
Enquanto o governador se contradizia em entrevistas — primeiro afirmando que o governo federal havia negado ajuda, depois dizendo que “foi mal compreendido” —, a população da Penha enterrava seus mortos.

O esforço federal e o abandono local — Apesar das tentativas de desinformação, os números comprovam o compromisso do governo federal com o Rio de Janeiro. Desde 2023, o Ministério da Justiça e Segurança Pública atendeu todas as 11 solicitações de uso da Força Nacional de Segurança Pública feitas pelo estado.
A Polícia Federal realizou 178 operações somente em 2025, sendo 24 contra o tráfico de drogas e armas, com 210 prisões e 10 toneladas de drogas apreendidas, além de 190 armas de fogo, entre elas 17 fuzis. Ações como a Operação Forja, que desmantelou uma fábrica clandestina de fuzis, e as operações Buzz Bomb e Libertatis, que prenderam operadores de drones de facções criminosas, demonstram uma estratégia nacional de combate ao crime organizado — sem transformar favelas em campos de extermínio.
Além disso, o estado recebeu R$ 331 milhões do Fundo Nacional de Segurança Pública, dos quais menos da metade foi executada, revelando falta de gestão local.
Quando a política escolhe o espetáculo da morte – O governo do Rio de Janeiro optou pela força em vez da inteligência. E o resultado é o maior massacre urbano da história recente do país. A operação, cercada de câmeras e justificativas duvidosas, serve mais como palanque para o populismo punitivista do que como ação de segurança.
Parte da extrema-direita tenta transformar a tragédia em capital político, alimentando narrativas falsas de que o país “está entregue ao crime” desde a eleição de Lula — uma manipulação grotesca que usa o medo como ferramenta de poder.
Enquanto isso, o sangue escorre nas vielas, e mães buscam os corpos de seus filhos em matas encharcadas.
O que está em jogo — O que está em jogo não é apenas a contagem dos mortos — é o modelo de país que queremos. Um Estado que mata em nome da lei não é um Estado de Direito. O verdadeiro combate ao crime se faz com planejamento, inteligência e políticas públicas consistentes, não com tanques, caveirões e discursos eleitoreiros. O Brasil não precisa de uma guerra contra o seu próprio povo. Precisa de justiça, verdade e responsabilidade.
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*Amilton Farias é jornalista e editor chefe do Portal Fronteira Livre