Curitiba, PR – Nesta terça-feira, 11 de fevereiro, é celebrado o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e, desde 2016, reconhece a contribuição feminina para o desenvolvimento científico e tecnológico, além de reforçar ações voltadas à igualdade de gênero.

Apesar do avanço nas últimas décadas, a presença feminina em áreas como ciência, tecnologia, engenharia e matemática ainda enfrenta desafios. Dados da Unesco indicam que as mulheres representam 35% dos graduados nesses campos. Entre os fatores apontados estão estereótipos de gênero e desigualdades no acesso à educação de qualidade.

A ampliação da participação feminina na ciência está alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU. Nesse contexto, o incentivo desde a educação básica é considerado estratégico, com destaque para o papel das universidades públicas por meio de projetos de extensão, iniciação científica e ações institucionais.

Na Universidade Federal do Paraná (UFPR), diferentes iniciativas atuam para ampliar a presença de mulheres na ciência, envolvendo professoras, pesquisadoras e estudantes.

Na área de Astronomia, a professora Roberta Chiesa Bartelmebs, do Departamento de Educação, Ensino e Ciências do Setor Palotina, coordena o projeto Astro Pop, que desenvolve pesquisas sobre astronomia na educação básica e promove ações de incentivo à participação feminina.

Segundo a docente, o estímulo desde a infância é fundamental para enfrentar estereótipos como a ideia de que ciência não é espaço para meninas.

“Há vários estudos da psicologia do desenvolvimento e da psicologia social mostrando que para as crianças é ensinado que menina tem um certo comportamento, menino tem outro. Desde o momento em que se compra um brinquedo para o bebê”, afirma.

“Nesse machismo estrutural, as mulheres são muito mais afetadas. E principalmente com relação à carreira, a possibilidade de ela pensar: ‘eu posso escolher essa carreira, eu posso ser cientista’”.

Roberta destaca ainda a importância de inserir no currículo escolar referências femininas nas diferentes áreas do conhecimento.

“As mulheres sempre fizeram ciência, sempre escreveram histórias, sempre estiveram presentes, mas estavam sempre sendo colocadas em segundo plano ou tiveram os seus trabalhos roubados. A gente tem isso, infelizmente, acontecendo até hoje, mas estamos ensinando, mostrando para as meninas que as mulheres estavam desde sempre na história”, diz.

Professoras Roberta e Camila realizam trabalhos e projetos voltados ao incentivo de meninas nas áreas científicas. Fotos: arquivo pessoal.

Outro projeto da UFPR é o Meninas e Mulheres na Ciência (MMC), coordenado pela professora Camila Silveira, do Departamento de Química. A iniciativa atua em diversas frentes, como oficinas em escolas, formação de professores, apoio à permanência de pesquisadoras na universidade, produção de materiais educativos e atuação institucional.

De acordo com Camila, estudos internacionais apontam que meninas podem crescer com a percepção de que são menos inteligentes que os meninos, o que impacta escolhas profissionais.

“Há um processo de socialização entre meninas e meninos desde a infância que faz com que as meninas cresçam achando que elas são menos inteligentes. Elas tiveram algumas habilidades que deixaram de ser estimuladas ao longo da sua formação e isso afasta meninas desse universo”, explica.

“Pesquisas mostram que as meninas têm interesse por ciência, mas elas são desencorajadas a seguirem a carreira científica”.

A docente observa que, embora a paridade de gênero ainda esteja distante estimativas indicam que ela pode levar cerca de 130 anos para ser alcançada  projetos de extensão têm apresentado resultados.

“Nós já tivemos, nesse evento do Meninas nas Exatas, jovens que estavam na escola na época, participaram do evento e hoje estão na UFPR seguindo a carreira científica”, afirma.

“Com esses projetos vamos colaborando para minimizar os efeitos da desigualdade de gênero na ciência”.

Maria Karolina desenvolve trabalho conjunto com o Grupo de Química de Materiais. Foto: arquivo pessoal.

Pesquisadoras em destaque na UFPR

Dados da Coordenadoria de Pós-Graduação Stricto Sensu indicam que, em 2025, a UFPR contava com 3.330 discentes do sexo feminino matriculadas na pós-graduação, o que representa 54,42% do total de 6.119 estudantes.

Entre as pesquisadoras formadas na instituição está Maria Karolina Ramos, mestra e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Química. Sob orientação do professor Aldo Zarbin e em parceria com o Grupo de Química de Materiais (GQM), ela desenvolveu estudo sobre baterias de íon-sódio como alternativa às baterias tradicionais de lítio.

A pesquisa utilizou a técnica da nanoarquitetura para criar dispositivos flexíveis, transparentes e que funcionam em meio aquoso, com potencial aplicação em eletrônicos vestíveis e janelas inteligentes, além de reduzir impactos ambientais associados ao lítio.

Fernanda Santos fez parte da turma de 2024 do The Explorers Club 50, sendo a única mulher brasileira da lista. Fotos: arquivo pessoal.

Sobre a defesa da tese, Maria Karolina relata:

“Foi um sonho meu e que a minha família abraçou, um dos sonhos grandes da minha vida. E o dia da minha defesa foi absolutamente feliz. Não era só qualquer documento ou qualquer tese, era uma tese que tinha muito a minha cara”.

Atualmente, ela realiza estágio de pós-doutorado com bolsa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT/CNPq) NanoVida. A carreira acadêmica segue como objetivo.

“Eu quero me tornar professora um dia, de preferência de uma universidade, e ter o meu grupo de pesquisa. Mas por enquanto vou continuar fazendo os estágios de pós-doutorado, melhorando meu currículo e estudando”, afirma.

Na área da Geologia, a pesquisadora Fernanda Avelar Santos, egressa da UFPR, ganhou destaque internacional ao identificar rochas formadas por plástico na Ilha da Trindade, localizada a cerca de 1.200 quilômetros de Vitória (ES). A descoberta integrou mais de dez anos de pesquisas ligadas ao Laboratório de Estudos Costeiros (LECOST), sob orientação da professora Maria Cristina de Souza.

Fernanda relata que a vivência em expedições científicas consolidou sua escolha profissional.

“Eu me apaixonei, expedição científica é tudo. Eu me sinto cientista de filme, porque é uma coisa grandiosa trabalhar com o oceano”, conta. “Eu nunca mais larguei disso. Passei o último ano no Canadá trabalhando com as rochas de plástico. Descobri uma vocação”.

A pesquisadora também menciona desafios enfrentados em ambientes predominantemente masculinos.

“Eu tive que aprender a lidar com ambientes extremamente masculinos. A gente tem que aprender a se impor, a colocar nossas ideias e necessidades”, afirma.

Atualmente, Fernanda realiza estágio de pós-doutorado pela FTC UNESP, com período sanduíche na Western University, no Canadá.

“Uma meta na minha vida é ser professora universitária. Mas neste momento estou engajada com pesquisa e expedições científicas”, diz.

No Setor Palotina, a estudante Letícia Rodrigues da Silva, do décimo período de Medicina Veterinária, integra desde 2023 o projeto Rocket Girls: Meninas na Ciência, coordenado pela professora Mara Fernanda Parisoto. A iniciativa incentiva alunas do ensino fundamental e médio a ingressarem e permanecerem em cursos de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática.

Letícia Silva com equipe do Rocket Girls. Fotos: arquivo pessoal.

Letícia já participou de oficinas de foguetes em diferentes cidades, além de congressos e jornadas acadêmicas. Para ela, o contato com o projeto ampliou perspectivas profissionais. “Eu sinto que se eu tivesse esses tipos de projeto durante a escola, talvez eu estaria cursando outra faculdade ou outra área da veterinária. Esses projetos mostram para as meninas que elas têm potencial para estar onde quiserem”, afirma.

As iniciativas desenvolvidas na UFPR integram um conjunto de ações voltadas à ampliação da presença feminina na ciência, com foco no estímulo desde a educação básica até a formação de pesquisadoras em nível de pós-graduação.

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