FOZ DO IGUAÇU – O cenário nos postos de combustíveis do Brasil revela um paradoxo econômico neste início de 2026. Enquanto a Petrobras aplica uma política de redução de preços nas refinarias, o motorista brasileiro enfrenta altas sucessivas na bomba. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), desde o fim de 2022, o valor do combustível na refinaria caiu 16,4% (de R$ 3,08 para R$ 2,57), mas o preço médio nas bombas subiu 27,1%, atingindo a marca de R$ 6,33.

O impacto é sentido de forma concreta: encher um tanque de 50 litros ficou R$ 67,50 mais caro em três anos. Em cidades como Barueri e Guarujá (SP), o preço máximo já atingiu impressionantes R$ 9,29 por litro.

A barreira da privatização e o lucro das distribuidoras

Para a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, o gargalo está na desintegração da estatal, especialmente com a venda da BR Distribuidora em 2019. Ela defende que a Petrobras deveria atuar “do poço ao posto”:

“Com o acesso ao consumidor final, a Petrobras conseguia ajudar a formular o preço [nas bombas]. Quando a Petrobras sai da ponta, ela chega só até as refinarias. A gente abaixa o preço do combustível, mas as distribuidoras em geral alargam suas margens e isso não alcança o consumidor final”, afirmou Chambriard.

O coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, corrobora essa visão, apontando a herança das políticas anteriores como um entrave:

“Sabemos que a herança nefasta do governo Bolsonaro, que entregou de bandeja empresas fundamentais como a BR distribuidora, dificulta a chegada desses preços ao consumidor. Hoje em dia, cai o preço de venda da Petrobras às distribuidoras, porém, as distribuidoras aumentam a margem de lucro e não repassam a queda dos preços”, destaca Bacelar.

O peso dos tributos e o mercado paralelo

Especialistas explicam que fatores externos ao refino neutralizam os cortes da estatal. Ricardo Hammoud, professor do Ibmec-SP, aponta que mudanças tributárias e a valorização do etanol elevaram o valor final. Já Renato Mascarenhas, diretor da Edenred Mobilidade, explica a velocidade do impacto fiscal:

“Quando o ICMS aumenta, o impacto é direto e também mais rapidamente sentido nas bombas, independentemente dos valores praticados nas refinarias. Mesmo em momentos de alívio na origem, a carga tributária pode diminuir ou até neutralizar esse efeito”, explica Mascarenhas.

Por outro lado, o setor de revenda aponta a criminalidade como pressão indireta. José Alberto Gouveia, presidente do Sincopetro-SP, cita o uso de postos para lavagem de dinheiro pelo crime organizado:

“Isso estreita a margem de todo mundo. O governo precisa ser claro e destacar que a Petrobras não interfere no resto da cadeia, mas, como ele não faz, o dono do posto vira vilão”, declarou Gouveia.

Análise técnica: soberania e refino

Para Mahatma Ramos, diretor técnico do Ineep, a nova política de preços iniciada em 2023 é positiva por evitar a volatilidade internacional, mas esbarra em limites estruturais. Ele defende a expansão do parque industrial de refino:

“É preciso garantir uma autonomia brasileira na produção de derivados, reduzindo as importações. Para isso é necessário que a Petrobras amplie seus investimentos na expansão de seu parque industrial de refino”, afirma Ramos.

O cenário no Paraná: ICMS anula redução no bolso do paranaense

No Paraná, a situação é agravada pela política fiscal do governo estadual. O repasse das reduções da Petrobras não deve beneficiar os consumidores paranaenses, uma vez que o governador Ratinho Junior (PSD) — pré-candidato à Presidência — aumentou a alíquota do ICMS para combustíveis desde 1º de janeiro de 2026.

Este aumento simultâneo de R$ 0,10 por litro na gasolina e R$ 0,05 no diesel, autorizado pelos governadores via Confaz, acaba neutralizando a queda anunciada nas refinarias. Segundo o Paranapetro, entidade que representa os postos no estado, o impacto tributário é imediato e atinge também o gás de cozinha (GLP), com reajuste de 5,7% (R$ 1,05 a mais por botijão).

Foz do Iguaçu: logística e custo de vida

Em Foz do Iguaçu, o impacto é sentido com ainda mais intensidade. Por estar na ponta final da logística, recebendo combustíveis da refinaria de Araucária (Repar) após centenas de quilômetros de transporte, o custo do frete se soma ao novo ICMS paranaense.

A elevação da carga tributária estadual na fronteira não afeta apenas o motorista, mas toda a cadeia econômica, encarecendo o transporte de alimentos e a prestação de serviços. Em Foz, o aumento dos combustíveis é um motor direto para a alta do custo de vida, dificultando que o alívio financeiro promovido pelo governo federal chegue efetivamente à população iguaçuense.

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