Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros e norte-americanos revelou que mulheres com declínio cognitivo, incluindo casos leves até diagnósticos de demência, como Alzheimer e demência de corpos de Lewy, apresentam níveis mais baixos de duas moléculas no sangue: acetil-L-carnitina e, especialmente, carnitina livre, em comparação a pacientes saudáveis.
A pesquisa, que analisou amostras de líquor e sangue de 125 pacientes no Brasil e nos Estados Unidos, encontrou uma correlação entre a gravidade do declínio cognitivo e a redução dos níveis dessas moléculas. O estudo, apoiado pelo Instituto Serapilheira e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), envolveu cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e de instituições internacionais, e foi publicado na revista Molecular Psychiatry, do grupo Nature.
A descoberta pode abrir novas possibilidades para tratamentos e técnicas de diagnóstico menos invasivas, uma vez que os pesquisadores identificaram uma forte relação entre a carnitina e os marcadores de beta-amiloide e tau, indicadores significativos da doença de Alzheimer. Essa relação não foi observada nos homens, que, segundo os cientistas, parecem ter níveis naturalmente mais baixos de carnitina, o que pode ajudar a explicar a maior incidência da doença entre as mulheres — que é duas vezes mais frequente nesse grupo.
A Importância da Carnitina
Os pesquisadores, liderados pelo professor Lourenço da UFRJ, sugerem que a carnitina desempenha um papel protetor para o cérebro. “Quando os níveis de carnitina caem, a vulnerabilidade aumenta, e essa redução parece ser mais acentuada nas mulheres”, afirma Lourenço. A pesquisa foi inspirada em estudos anteriores com camundongos, que mostraram melhorias na função cognitiva após a administração de acetil-L-carnitina.
Atualmente, a prevenção da demência neurodegenerativa é baseada em 14 fatores de risco modificáveis. Um relatório da revista científica The Lancet, publicado no ano passado, indicou que 45% dos casos de demência poderiam ser evitados se esses fatores fossem alterados. A relação entre a carnitina e os marcadores tradicionais reforça a hipótese de que essa molécula tem um papel essencial na origem do Alzheimer.
A carnitina é vital para as células, especialmente as musculares e hepáticas, e está relacionada ao metabolismo de gorduras. Um estudo sueco observou que a incidência de demência era similar entre homens e mulheres até os 80 anos; após essa idade, as mulheres apresentavam maior probabilidade de diagnóstico, especialmente em relação ao Alzheimer.
Fatores Investigados
As principais hipóteses em investigação incluem:
- Cromossomo X: Estudos recentes sugerem que o cromossomo X materno influencia a cognição e o envelhecimento cerebral em camundongos fêmeas.
- Variações Hormonais: Enquanto a testosterona nos homens se mantém relativamente constante após a puberdade, nas mulheres, os hormônios estrogênio e progesterona apresentam variações significativas, tanto em curto quanto em longo prazo, especialmente durante a menopausa.
- Condições Socioeconômicas: Mulheres da geração atualmente afetada pela demência tiveram menos acesso à educação formal, resultando em menor escolaridade e oportunidades profissionais, o que impacta negativamente na formação de reserva cognitiva, um fator protetor contra o Alzheimer.