Uma pesquisa inovadora, conduzida pela cientista paranaense Ana Carolina Ruver Martins na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), apresenta resultados inéditos sobre o potencial do uso combinado de canabinoides (THC e CBD) no tratamento da Doença de Parkinson (DP). O estudo, realizado com uma metodologia rigorosa, sugere uma alternativa promissora para o alívio dos sintomas da doença, impactando potencialmente as diretrizes clínicas e a qualidade de vida de milhares de pacientes.

Ana Carolina Ruver, doutora em farmacologia e pós-doutoranda na UFSC, liderou o ensaio clínico “Efeitos da associação dos canabinóides THC e CBD sobre os sintomas motores e não motores da doença de Parkinson: um ensaio clínico, duplo-cego, randomizado e controlado por placebo”, conduzido no Laboratório Experimental de Doenças Neurodegenerativas (LEXDON). A pesquisa se destaca por sua abordagem metodológica, com análises aprofundadas e resultados sem precedentes, sendo o primeiro ensaio clínico controlado com um número significativo de participantes e um longo período de acompanhamento (seis meses, com 68 pacientes), permitindo avaliar a eficácia e segurança do tratamento a longo prazo. Ruver enfatiza que o objetivo foi obter dados confiáveis e uma base científica sólida para o uso de canabinoides no Parkinson.

O estudo foi orientado pelo Dr. Rui Prediger, doutor em farmacologia pela UFSC, que ressalta a escassez de estudos clínicos controlados sobre a eficácia do canabidiol no Parkinson, apesar de seu uso medicinal já ser praticado. Prediger explica que outro diferencial da pesquisa foi a combinação de THC e CBD, baseada em estudos anteriores que indicavam eficácia limitada do CBD isolado.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2024, cerca de 4 milhões de pessoas vivem com Parkinson no mundo, representando 1% da população com 65 anos ou mais. No Brasil, estima-se que 200 mil pessoas sofram da doença neurodegenerativa, caracterizada pela perda progressiva de neurônios dopaminérgicos, essenciais para o controle motor e outras funções cerebrais. A degeneração desses neurônios leva a sintomas como tremores, rigidez muscular, dificuldades de movimento, além de possíveis alterações cognitivas, depressão, distúrbios do sono e dor crônica, impactando a qualidade e expectativa de vida dos pacientes.

A Dra. Ana Ruver explica que estudos anteriores frequentemente apresentavam limitações, como um número reduzido de participantes e falta de padronização nas dosagens e formas de aplicação da cannabis. Em contraste, a pesquisa brasileira utilizou uma formulação oral padronizada de CBD:THC, testada contra placebo durante 180 dias em pacientes com Parkinson em estágios iniciais a moderados (até estágio 3 na escala de Hoehn e Yahr). A metodologia “duplo-cego”, onde nem pacientes nem pesquisadores sabiam quem recebia o tratamento ativo ou o placebo, garante a imparcialidade dos resultados.

O Dr. Rui Prediger reforça que a metodologia rigorosa, incluindo a randomização por software para garantir a distribuição equilibrada dos participantes entre os grupos, minimiza vieses e assegura resultados mais confiáveis.

Os resultados do estudo indicaram que os pacientes que receberam o tratamento com canabinoides apresentaram melhoras motoras mais rápidas em comparação com o grupo placebo. Além disso, as mulheres demonstraram uma resposta mais positiva em aspectos como a gravidade da doença, flexibilidade e qualidade do sono. Embora promissores, os pesquisadores ressaltam a necessidade de mais estudos para determinar a dosagem ideal e os efeitos a longo prazo.

Para a Dra. Ana Ruver, a pesquisa abre novas perspectivas para o tratamento do Parkinson e para futuras investigações sobre o uso de canabinoides em outras doenças. Os dados obtidos também podem influenciar a legislação brasileira sobre o uso medicinal da cannabis, alinhando-se às regulamentações da Anvisa. Ruver acredita que a quebra de tabus sobre o uso medicinal da cannabis é fundamental para avançar nas pesquisas e aplicações terapêuticas.

A paciente A.K., voluntária no estudo, relata uma melhora significativa na dor muscular e na qualidade do sono após o início do tratamento com THC e CBD, impactando positivamente sua qualidade de vida. Ela recomenda a ampliação dos estudos e o acesso ao tratamento para outros pacientes, sob supervisão médica.

Dados da Kaya Mind indicam um mercado crescente de cannabis medicinal no Brasil, com um número significativo de pacientes importando medicamentos ou utilizando tratamentos via associações e farmácias. O Sistema Único de Saúde (SUS) também oferece alguns desses medicamentos, com um potencial de mercado bilionário nos próximos anos caso haja regulamentação mais ampla.

O Laboratório Experimental de Doenças Neurodegenerativas da UFSC, com 18 anos de estudos sobre o Parkinson, também investiga o potencial da cannabis em outras condições neurológicas, como Alzheimer, Transtorno do Espectro Autista (TEA), Esclerose Múltipla (EM) e Fibromialgia. Os resultados da pesquisa sobre o Parkinson estão em avaliação para publicação em revistas científicas internacionais.