Taguatinga, DF – Um estudo do Centro de Evidências da Educação Integral parceria entre Insper, Instituto Sonho Grande e Instituto Natura aponta que o programa Pé-de-Meia, do Governo Federal, tem impacto direto na permanência escolar. A pesquisa indica que, a cada quatro estudantes que pensavam em abandonar o ensino médio, um decide continuar os estudos devido ao incentivo financeiro. A iniciativa integra a política pública de combate à evasão e de promoção da inclusão educacional entre jovens em situação de vulnerabilidade.
Na prática, os efeitos já são percebidos no cotidiano de escolas públicas. No Centro Educacional 04 de Taguatinga, no Distrito Federal, estudantes relatam mudanças na forma de planejar o futuro. As alunas Láiza Castro e Emanuela Teixeira, ambas do 3º ano do ensino médio, são beneficiárias do programa e vivem no assentamento 26 de Setembro.
Láiza, de 17 anos, mora com a mãe, enfermeira, e o padrasto, pedreiro. Interessada em geopolítica, também estuda francês no Centro Interescolar de Línguas de Taguatinga (CILT) e pretende cursar Relações Internacionais.
“Eu quero fazer Relações Internacionais e pretendo fazer concurso para diplomata ou na área de chancelaria. Além disso, quero fazer muitos intercâmbios para complementar o currículo e para trabalhar, principalmente, na área de importação e exportação”, afirma.
A estudante relata que o incentivo mensal de R$ 200 contribui para despesas básicas e para a organização financeira.
“Minha mãe nem me dá mais dinheiro porque o auxílio é como se fosse meu salário, então tenho que saber administrar e minha mãe mandou anotar no caderninho todos os meus gastos”, diz. Segundo ela, o valor anual de R$ 1.000 será utilizado como poupança para o início da vida adulta.

Assim como a colega, Emanuela Teixeira também projeta avanços a partir do programa. Moradora com os pais e seis irmãos, ela investiu o recurso em qualificação profissional na área da beleza e adquiriu materiais para trabalhar com design de sobrancelhas.
“Eu acho que o Pé de Meia é um programa que deveria continuar em todos os governos porque ajuda bastante”, afirma. A estudante pretende cursar terapia ocupacional na Universidade de Brasília (UnB) e seguir com pós-graduação em fisioterapia ou saúde coletiva.
O diretor do Centro Educacional 04, Herberth Milanez, afirma que a escola atende estudantes em contexto de vulnerabilidade social e que o programa contribui para a permanência e para as condições básicas dos alunos.
“O Pé-de-Meia serve muitas vezes para ajudar a família a subsistir mesmo, para comprar comida, roupas, livros, e observei que contribui sim para diminuir a evasão escolar. Até porque o programa está condicionado à frequência. Se o aluno não tem frequência, perde o benefício”, explica.
Segundo o gestor, a frequência escolar impacta diretamente o desempenho acadêmico e amplia oportunidades futuras, como o ingresso no ensino superior e aprovação em concursos públicos.

O coordenador do ensino médio, professor Matheus Coimbra, destaca que a permanência dos jovens também enfrenta desafios relacionados às transformações tecnológicas e novas perspectivas profissionais.
“Mantê-los interessados na escola como meio de mudança social é um desafio por conta dessas novas profissões que estão surgindo. A gente explica que mesmo pra ser influencer precisa entender, por exemplo, de administração financeira e de produção de conteúdo, porque senão o empreendimento corre o risco de fracassar”, afirma.

De acordo com o estudo, publicado no livro Bolsas de estudo e evasão: avaliação de impacto ex-ante, a taxa de abandono no ensino médio entre estudantes em situação de vulnerabilidade seria de 26,4% sem o programa. Com o Pé-de-Meia, o índice cai para 19,9%, o que representa redução média de 6,5 pontos percentuais no país.
A análise também aponta variações regionais. No Ceará, a queda na evasão chega a 10 pontos percentuais, enquanto no Paraná a redução estimada é de 4,4 pontos percentuais. Apesar das diferenças, todos os estados apresentam resultados acima do patamar mínimo de 2,5 pontos percentuais considerado necessário para que os benefícios do programa superem seus custos.

Voltado a estudantes do ensino médio público inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico), o Pé-de-Meia funciona como uma poupança para estimular a permanência e a conclusão escolar. O programa prevê pagamento mensal de R$ 200, além de incentivo anual de R$ 1.000 por série concluída, liberado após a formatura.

A mestre em Economia Aplicada Laura Muller, professora do Insper e uma das autoras do estudo, destaca o impacto social da iniciativa.
“A reversão da decisão de um jovem já gera um benefício enorme para ele e para a sociedade. Ao aliviar a pobreza, a transferência de renda promove melhores condições para que o aluno possa frequentar e permanecer na escola”, afirma. Segundo ela, um jovem que conclui a educação básica no Brasil pode gerar retorno social de aproximadamente R$ 364 mil ao longo da vida.
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