Paranaguá, PR – Com o objetivo de aprimorar a segurança e o planejamento de atividades em regiões de relevo acidentado, o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) iniciará a instalação de duas estações meteorológicas em áreas montanhosas. Essa medida, considerada inédita, visa oferecer dados mais precisos sobre as rápidas mudanças climáticas que caracterizam esses locais, muitas vezes impactando diretamente a segurança de montanhistas e turistas.
Uma das estações será instalada na próxima semana, na base do Parque Estadual Pico Marumbi (PEPM). A visita técnica para definir os pontos de implantação ocorreu na terça-feira (12), e os estudos indicaram que o local mais adequado na base é próximo à estação de trem Marumbi. A segunda estação, com previsão de instalação em até 60 dias, será posicionada no topo do Pico Olimpo, também conhecido como Pico Marumbi, o ponto mais alto da Unidade de Conservação.
Os equipamentos que comporão as estações são: anemômetro (para registrar velocidade e rajada do vento), pluviômetro (para volumes de chuva), piranômetro (para medir a radiação solar), termohigrômetro (sensor de temperatura e umidade) e barômetro (sensor de pressão).
José Eduardo Gonçalves, gerente de Hidrologia e Infraestrutura do Simepar, explicou a relevância da iniciativa: “A ideia é compreender melhor como o clima especificamente nessa área se comporta. Principalmente a chuva, que é uma variável super importante para dar suporte para o pessoal que gerencia a área e também o pessoal que faz os resgates de possíveis turistas perdidos no local”. Os dados coletados serão de grande valia para órgãos como o Instituto Água e Terra (IAT), Defesa Civil e Corpo de Bombeiros Militar, além do Cosmo (Corpo de Socorro em Montanha), uma organização civil de montanhistas e voluntários.
Gonçalves detalhou a estratégia de posicionamento: “As condições meteorológicas na serra são adversas. Sem os dados, sem o monitoramento, não é possível identificar a diferença. Por isso, a ideia é colocar um ponto de monitoramento a aproximadamente 1.500 metros de altura e um na base, que fica mais ou menos a 450 metros de altura em relação ao nível do mar”.
Os dados de todas as estações meteorológicas do Simepar são atualizados a cada 15 minutos e disponibilizados gratuitamente ao público no site: www.simepar.br. As informações geradas pelas novas estações poderão auxiliar diretamente montanhistas e visitantes no planejamento de suas trilhas, elevando o nível de segurança.
A equipe do Simepar, o chefe da unidade Gabriel Camargo Macedo, representantes do Instituto Água e Terra e integrantes do Cosmo, com o apoio da Assembleia Legislativa do Paraná, participaram do estudo e da visita técnica para a definição dos pontos de instalação.
Rafael Greca, secretário estadual de Desenvolvimento Sustentável, ressaltou a importância para o turismo e a conservação: “A ideia é, a cada 15 minutos, dar a informação do tempo para quem quer subir ou quem está descendo a montanha. É um Paraná sustentável que ama a natureza e faz com que esse local, escalado pela primeira vez em 1880, seja agora mais ainda visitado pelos brasileiros e por gente do mundo todo que vê na Mata Atlântica um tesouro inestimável da natureza”.
Segurança e o papel do cosmo
O Cosmo desempenha um papel crucial na primeira resposta a ocorrências no Parque Estadual Pico Marumbi. Em situações mais graves, o Corpo de Bombeiros é acionado. O grupo registrou mais de 30 ocorrências entre 2022 e 2024 no PEPM, incluindo sete resgates de maior complexidade. Dentre essas ocorrências, 31% foram registradas no Pico Olimpo e na Trilha Frontal. Segundo o Cosmo, aproximadamente 60% desses incidentes poderiam ser evitados com preparo físico adequado, hidratação e planejamento de horário.
Meteorologistas do Simepar explicam que as condições climáticas mudam rapidamente em regiões montanhosas devido ao relevo irregular. Fatores como altitude, vegetação e até mesmo a proximidade com o oceano (no caso do PEPM) impactam diretamente nessas alterações. Fenômenos como ventos fortes e enxurradas podem ocorrer subitamente, colocando visitantes em risco.
Lineu Filho, vice-coordenador do Cosmo, enfatiza que as questões climáticas são primordiais para uma visitação segura. Em climas úmidos, as trilhas se tornam mais perigosas e escorregadias. O frio aumenta o risco de hipotermia, já que a temperatura diminui com a altitude. No verão, as altas temperaturas podem gerar grande amplitude térmica entre diferentes pontos da trilha.
“Por estes motivos, o monitoramento das condições climáticas favorece porque com isso as pessoas podem optar por não ir se o tempo não estiver adequado, e também para pesquisa ao longo do tempo. Ter dados mais precisos sobre as condições climáticas no parque vai ajudar no manejo da visitação”, afirma Lineu Filho.
O Parque Estadual Pico Marumbi (PEPM)
O PEPM abrange atualmente 8.745 hectares e é uma Unidade de Conservação da Natureza de Proteção Integral, com o objetivo primordial de conservar sua rica biodiversidade. Parte de seus limites faz divisa com outras unidades, como a Área de Proteção Ambiental Estadual do Piraquara, o Parque Estadual da Serra da Baitaca e o Parque Estadual da Graciosa. O PEPM recebe cerca de 8,5 mil visitas anualmente, com julho sendo o mês de maior público.
O Conjunto do Marumbi é composto por diversos picos que superam os 1.000 metros de altitude. Por questões de segurança, o acesso é autorizado apenas nos quatro principais: Pico Olimpo (1.539 m), Gigante (1.487 m); Ponta do Tigre (1.400 m); Abrolhos (1.200 m); e Morro Rochedinho (625 m).
O nome original do Pico Olimpo, batizado pelos índios, era “Guarumby”, que em tupi significa “Montanha Azul”. Atualmente, ele leva o nome de Joaquim Carmeliano Olimpio, que o alcançou pela primeira vez em 21 de agosto de 1879. Esta conquista marcou o início do montanhismo esportivo no Brasil, e por isso a Montanha do Marumbi é considerada o Berço do Montanhismo no Brasil. Até a conquista do Pico Paraná, na Serra do Ibitiraquire, na década de 1940, o Marumbi (hoje Olimpo) era considerado o ponto mais alto do Estado. Curiosamente, devido à inclinação, a trilha para o Olimpo é considerada mais difícil do que a do Pico Paraná, mesmo com sua altitude menor.