O príncipe Andrew, de 65 anos, irmão do rei Charles III, anunciou nesta sexta-feira (17) sua renúncia definitiva ao título de duque de York — um dos mais antigos e simbólicos da monarquia britânica. A decisão foi formalizada após acordo com o rei e outros membros da família real, segundo comunicado do Palácio de Buckingham.
“Concluímos que as contínuas acusações contra mim desviam a atenção do trabalho de Sua Majestade e da Família Real”, afirmou Andrew, em referência às denúncias de abuso sexual relacionadas à rede de tráfico comandada pelo bilionário americano Jeffrey Epstein.
“Decidi colocar o dever para com minha família e meu país em primeiro lugar. Não usarei mais meu título nem as honras que me foram conferidas”, declarou.
Com a renúncia, Andrew perde o último título de nobreza ativo, embora continue sendo príncipe por nascimento. Ele era o oitavo na linha de sucessão ao trono, mas há anos vive afastado da vida pública.
Escândalos e isolamento
O agora ex-duque tem sua imagem arruinada desde o envolvimento no caso Epstein, considerado um dos maiores esquemas de tráfico sexual de menores dos Estados Unidos. O empresário americano, que se suicidou em 2019 antes de ser julgado, mantinha uma rede de exploração que envolvia adolescentes recrutadas para prestar serviços sexuais a figuras influentes do meio político e financeiro.
Uma das vítimas, Virginia Giuffre, acusou Andrew de ter cometido abusos em três ocasiões no início dos anos 2000, quando ela tinha 17 anos. As acusações foram retomadas nesta semana após o jornal britânico The Guardian publicar trechos das memórias póstumas da jovem, falecida em abril deste ano.
Giuffre descreve o príncipe como “um homem que acreditava ter o direito de fazer sexo comigo como parte de seu status”. A denúncia, sustentada por uma foto que mostra Andrew ao lado de Virginia e da socialite Ghislaine Maxwell — cúmplice de Epstein —, levou a um acordo extrajudicial estimado em 12 milhões de libras (cerca de R$ 87,5 milhões).
Um príncipe em queda
A trajetória de Andrew, que já foi considerado o “filho favorito” da rainha Elizabeth II, mudou radicalmente após uma entrevista desastrosa concedida à BBC em 2019, quando tentou justificar sua amizade com Epstein. A resposta ambígua do príncipe, que chegou a dizer “lamentar o comportamento de Epstein, e não a amizade em si”, provocou indignação pública e marcou o início de seu isolamento.
Desde então, ele abandonou os deveres oficiais, perdeu os títulos militares e deixou de usar o tratamento de “Sua Alteza Real”. Em 2022, o Palácio de Buckingham distribuiu suas funções entre outros membros da realeza.
Pesquisas recentes indicavam forte apoio popular à perda de seus privilégios: 67% dos britânicos defendiam a retirada completa dos títulos, segundo levantamento da YouGov.
Consequências na família real
A decisão de Andrew ocorre em meio a esforços do rei Charles III para preservar a imagem da monarquia, desgastada por escândalos e pela percepção pública de desconexão com a sociedade britânica.
O ex-duque seguirá morando na Royal Lodge, propriedade localizada nos arredores do Castelo de Windsor, mas não participará mais de eventos públicos, como as tradicionais festas de Natal em Sandringham.
Suas filhas, as princesas Beatrice e Eugenie, não perderão suas posições protocolares, mas a ex-esposa, Sarah Ferguson, também deixou de usar o título de duquesa de York após vir à tona um e-mail em que chamava Epstein de “amigo supremo”.
Repercussões e legado
Analistas apontam que a renúncia de Andrew é um ato de sobrevivência institucional, uma tentativa da monarquia de se distanciar definitivamente do caso Epstein. Para o historiador britânico Robert Lacey, autor de Battle of Brothers, “a decisão de Andrew é menos um gesto pessoal e mais uma medida de contenção do rei Charles, preocupado em evitar que o escândalo contamine o futuro da Coroa”.
A renúncia do título de duque de York — criado em 1474 e tradicionalmente associado ao segundo filho do monarca — encerra um dos capítulos mais constrangedores da história recente da família real britânica.