Os efeitos do terremoto financeiro vivido em 2007-2008 ainda não foram superados, mas o cenário desenhado por políticos e banqueiros parece preparar o terreno para uma nova crise. Embora alguns bancos tenham pago multas somando 178 bilhões de dólares, o setor trata esses valores como “preço de fazer negócios”, sem que nenhum líder do setor tenha enfrentado penas de prisão.
Estudos matemáticos da época mostram uma teia interconectada de atores financeiros mundiais onde a falha de um único ponto pode desencadear um colapso total. O sistema permanece no fio da navalha por razões estruturais:
A sabotagem dos dispositivos de segurança financeira
Um dos pontos centrais da fragilidade é a ausência de intenção das instituições internacionais em regular o setor. Os bancos tornaram-se “grandes demais para serem desafiados”.
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Revogação da Glass-Steagall: A lei norte-americana, que separava bancos comerciais de bancos de investimento desde o New Deal, foi revogada em 1998 sob o mandato de Bill Clinton. Isso permitiu que o dinheiro dos depositantes voltasse a ser usado em especulações de risco.
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Crescimento de Derivativos: Os volumes diários de transações com derivativos cresceram cerca de 30% em comparação aos níveis pré-crise de 2008. Atualmente (dados de 2014), essas operações somam cem vezes o Produto Mundial Bruto.
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Transações Automatizadas: O surgimento de algoritmos impulsiona esse crescimento, mas eleva o risco de erros sistêmicos perigosos cometidos por máquinas.
O triunfo dos paraísos fiscais e a evasão corporativa
Os paraísos fiscais especializaram-se na evasão fiscal corporativa, permitindo que grandes empresas deixem de contribuir para os serviços públicos que utilizam, como segurança, saúde e transporte.
O escândalo Luxleaks desmascarou a evasão fiscal de mais de 300 empresas, demonstrando a cumplicidade de Estados-membros da União Europeia que fazem “vistas grossas” enquanto lucros são transferidos para Luxemburgo para evitar tributação.
A desconexão com a economia real
Pesquisas do Banco Central Europeu sobre os 130 maiores bancos da UE revelam que estas instituições não apoiam a economia real.
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Empréstimos escassos: Pequenas e médias empresas, responsáveis por 90% dos empregos, continuam com dificuldades para receber crédito.
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Finance Watch: O think tank de Bruxelas afirma que apenas 28% da atividade bancária vai para a economia real; o restante alimenta o setor de produtos financeiros abstratos.
O papel da “Troika” e as gratificações recordes
Em 2011, os lucros dos bancos norte-americanos já haviam retornado aos níveis recorde de antes da crise. Enquanto populações enfrentam austeridade, gratificações milionárias continuam sendo distribuídas com dinheiro proveniente de empréstimos estatais.
Na Europa, a atuação da “Troika” (Comissão Europeia, BCE e FMI) entre 2010 e 2012 na Grécia foi criticada por canalizar recursos não para “ajudar os gregos”, mas para garantir que bancos franceses e alemães recebessem o pagamento de títulos de risco.
“Os povos, que não criaram a crise, devem sofrer com ela. Isso se mede em fome crescente, fechamento de hospitais e escolas.”
Vitória dos estudantes: Chile envia projeto para tornar a educação gratuita