Por Rosa Miriam Elizalde – Opinião
O perigo de confiar na CIA, dizia o político brasileiro Leonel Brizola, é que, com o passar dos anos, a agência abre seus arquivos e tudo o que está podre vem à tona. A previsão de que novos esqueletos sairão do armário da política estadunidense está em alta desde que Donald Trump decidiu publicar os documentos classificados que ainda estão sob sigilo, relacionados ao assassinato do presidente John F. Kennedy (JFK).
Com essa notícia no ar, alguns meios de comunicação resgataram do esquecimento a Operação Northwoods, um plano de 1962 que veio à tona na primeira grande abertura dos arquivos misteriosos do assassinato de Dallas, quase 40 anos depois, em 1997. Uma montanha de documentos foi publicada, quando o Conselho de Revisão de Registros do Assassinato de JFK liberou 1.521 páginas dos arquivos militares desclassificados de 1962 a 1964. Os 12 folhetos da Operação Northwoods fizeram parte desse grupo, mas passaram despercebidos entre a podridão. Até agora.
Esta operação descreve que, no início dos anos 60, durante a administração Kennedy, a CIA elaborou planos para matar pessoas inocentes e cometer atos de terrorismo em cidades dos Estados Unidos a fim de criar apoio público para invadir Cuba. Com o nome em código Northwoods, as ações encobertas incluiriam o assassinato de cubanos na Flórida, o afundamento de barcos com emigrantes no alto-mar, o sequestro de aviões, a explosão de um navio estadunidense e até mesmo a organização de atos de terrorismo com vítimas fatais em várias cidades dos Estados Unidos, incluindo a capital, Washington.
Os planos detalham explicitamente um esquema para enganar o público estadunidense e a comunidade internacional para justificar a guerra que derrubaria o jovem governo de Fidel Castro. Os altos comandantes militares dos Estados Unidos consideraram a possibilidade de causar baixas militares estadunidenses, conforme escreveram em um memorando datado de 13 de março de 1962: “Poderíamos fazer explodir um barco na baía de Guantánamo e culpar Cuba, e as listas de baixas nos jornais provocariam uma onda de indignação nacional.” Também se propôs fazer funerais falsos para mobilizar a opinião pública a favor da intervenção militar.
Os planos tinham a aprovação escrita do Estado-Maior Conjunto e foram apresentados ao secretário de Defesa do presidente Kennedy, Robert McNamara. Faziam parte de um esforço mais amplo para derrubar o governo revolucionário, conhecido como Operação Mangosta, uma campanha da CIA que incluía espionagem, sabotagem e apoio a mercenários de origem cubana. Mas a Operação Northwoods foi rejeitada por Kennedy, que estava preocupado com as implicações éticas e políticas de um plano que fazia uso do engano deliberado e apostava no sacrifício de vidas estadunidenses para manipular a opinião pública.
A negativa de Kennedy exacerbou as tensões entre o presidente e os altos comandos militares, que já questionavam sua liderança após o fracasso da invasão da Praia Girón (também conhecida como Baía dos Porcos) em 1961. O presidente seria assassinado em Dallas em novembro de 1963, um ano e meio depois de elaborado esse plano, e a Operação Northwoods se tornaria objeto de atenção nas investigações do assassinato.
Agora, o presidente Donald Trump prometeu publicar todos os documentos classificados relacionados à morte de JFK, à de seu irmão – o senador Robert Kennedy – e à de Martin Luther King, estes dois últimos assassinados em 1968. Ninguém duvida, nem mesmo Trump, que atividades ainda mais controversas do governo nos anos 60 serão reveladas, pois ficou sem divulgar o mais interessante desses arquivos, segundo o presidente republicano.
A grande paradoxa deste momento trumpista é que, enquanto nos permite vislumbrar projetos assustadores de terrorismo de Estado contra Cuba que friamente calculavam a morte de inocentes em território estadunidense, o novo inquilino da Casa Branca incluiu novamente a ilha na lista de países patrocinadores do terrorismo. Poucas coisas são mais cínicas do que isso. Trump desfaz os escrúpulos de imagem dos velhos conservadores, e sentindo-se, agora sim, imbatível para a eternidade, exibe abertamente seus ódios e vergonhas, além de sua particular vingança contra o Estado profundo. Mas o que a Operação Northwoods prova é que ele não é uma novidade, nem chegou à Casa Branca do nada.
Rosa Miriam Elizalde, é jornalista e escritora cubana. Doutora em Ciências da Comunicação e autora ou coautora dos livros “Antes de que se me olvide”, “Jineteros en La Habana” e “Chávez Nuestro”, entre outros.
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*Rosa Miriam Elizalde, é jornalista e escritora cubana. Doutora em Ciências da Comunicação e autora ou coautora dos livros “Antes de que se me olvide”, “Jineteros en La Habana” e “Chávez Nuestro”, entre outros.
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Texto traduzido por Amilton Farias do Fronteira Livre
Texto original: https://www.jornada.com.mx/