Por Giovanni Antunes – Opinião

Em meio aos inúmeros desafios da educação contemporânea no Brasil — que abrangem desde as transformações tecnológicas e a inclusão de alunos atípicos até a luta pelo número ideal de estudantes por turma —, o mito da “pedagogia por amor” persiste como um dos principais fenômenos do imaginário popular, atravessando gerações. É fundamental debater este tema para avançarmos em direção à valorização e ao reconhecimento real do docente brasileiro, distanciando-nos do “coitadismo” que muitas vezes surge quando um profissional se apresenta com a frase: “Sou professor”.

A ausência do “amor” em outras áreas técnicas

Diferente de outras graduações, a Pedagogia é cercada por um discurso sentimentalista que desvaloriza a formação acadêmica e técnica.

Para esta reflexão, tomaremos como base outras profissões nas quais a ideia do “amor” é raramente evocada como pré-requisito técnico. Durante a graduação em diversas áreas do conhecimento, não se ouve com frequência o termo “por amor”. Já no curso de Pedagogia, a expressão surge com naturalidade; frases como “pedagogia por amor” e “educação por amor” tornaram-se corriqueiras e perigosas. A frustração observada no cotidiano escolar não é por acaso: a exigência social de amar o que se faz impõe um peso excessivo aos ombros dos profissionais. Nesse contexto, vale destacar o modelo capitalista neoliberal vigente, no qual a realização emocional é vendida como mercadoria, mas a realidade do chão da escola é de exaustão.

O adoecimento da categoria e a cobrança incondicional

O professor é submetido a uma pressão emocional única, resultando em esgotamento físico e mental sob o pretexto do “sacerdócio”.

Estamos diante de um mito que atinge severamente os professores, especialmente os dos anos iniciais. Esta parece ser a única profissão da qual se cobra um amor incondicional — o fatídico “ame-o ou deixe-o” —, o que tem resultado no adoecimento em massa da categoria. A romantização prejudica profissionais já calejados pela precarização; é preciso dar um salto qualitativo na profissionalização docente. Termos como “tio” e “tia” precisam desaparecer, não apenas da fala, mas do imaginário coletivo. O fato de esse discurso infantilizado reverberar inclusive entre colegas demonstra o quanto ainda precisamos evoluir na consciência de classe.

Competência profissional acima do sacrifício

Afastar o mito da romantização é o caminho para exigir condições dignas, salários justos e o respeito à prática docente fundamentada no direito.

Contudo, afastar o mito não significa realizar o trabalho de qualquer forma ou desprezar os alunos. Trata-se de avançar para uma prática docente fundamentada na competência e no direito, sem a obrigatoriedade de expressões vazias como “casei com a educação”. Os professores precisam ser valorizados, mas essa valorização deve basear-se em condições dignas de trabalho, salários justos e respeito profissional — e jamais em um sacrifício romantizado que serve apenas para manter os privilégios de quem não está na sala de aula.

“Professor não vive de amor; vive de salário digno e condições de trabalho.
A romantização do ensino camufla a precarização do trabalho docente”.

 

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*Giovanni Antunes é graduado em história e professor de educação infantil em Foz do Iguaçu-PR
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