Santiago – Chile
No marco dos 42 anos do golpe de Estado de 1973, o Museu da Memória e dos Direitos Humanos de Santiago inaugurou uma das mais impactantes mostras de fotojornalismo sobre a história recente do continente. A exposição resgata a memória da Operação Condor — a aliança clandestina entre as seis ditaduras militares da América do Sul para perseguir, torturar e eliminar opositores políticos nas décadas de 1970 e 1980.
O trabalho é fruto de dez anos de pesquisa do fotojornalista português João Pina. Desde 2005, o fotógrafo percorreu o continente, entrevistou centenas de sobreviventes, revisou processos judiciais e visitou centros de tortura emblemáticos, como o Londres 38 no Chile e prisões no Uruguai, além de paisagens que escondem cemitérios clandestinos, como o deserto do Atacama.
A invisibilidade das fronteiras na repressão
A exposição, intitulada “Sombra do Condor”, revela como as fronteiras nacionais foram ignoradas pelos aparatos de inteligência da Argentina, Bolívia, Chile, Uruguai, Paraguai e Brasil (este último como observador ativo). O objetivo era garantir que nenhum opositor estivesse seguro, independentemente do país onde se refugiasse.
Nascido em Lisboa em 1980, Pina pertence à primeira geração de portugueses nascidos após a queda da ditadura de Salazar e a Revolução dos Cravos. Para ele, o trabalho tem uma urgência geracional.
“Minha geração tem a distância emocional dos fatos que nos permite trabalhar com eles, mas, ao mesmo tempo, tem um envolvimento próximo que explica a curiosidade e a urgência de querer abordar essas questões”, afirma o fotojornalista.
Retratos da barbárie e o absurdo cotidiano
Entre as imagens mais poderosas da série — todas em preto e branco — está o retrato de Anahit Aharonián em sua antiga cela na prisão de Punta de Rieles, no Uruguai. Outro registro perturbador, parte da série batizada de “Absurdos”, mostra um avião militar argentino. A aeronave, utilizada nos infames “voos da morte” para lançar prisioneiros vivos ao mar, é usada hoje como suporte publicitário para uma loja de materiais de construção nos arredores de Buenos Aires.
A Operação Condor foi oficializada em 25 de novembro de 1975, em Santiago. Um dos crimes mais notórios atribuídos à rede foi o assassinato do ex-chanceler chileno Orlando Letelier, em 1976, por meio de um atentado a bomba em Washington, nos Estados Unidos.

Literatura e Justiça: o livro “Condor”
Paralelamente à mostra, foi lançado o livro “Condor”, que compila a extensa pesquisa documental e fotográfica de Pina. A obra conta com prefácio de Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara, e epílogo do renomado jurista espanhol Baltasar Garzón.
“O Condor foi uma fraternidade de almas afins”, escreve Anderson, sintetizando a sombria cooperação entre os regimes militares da época.
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