*Editorial Fronteira Livre

O Brasil encerrou o ano de 2025 com uma cicatriz aberta na segurança pública: 23.919 crianças e adolescentes desapareceram em território nacional. O dado, compilado pelo sistema Sinesp do Ministério da Justiça, não é apenas um número; é o registro de que, a cada hora, quase três famílias brasileiras perdem o rastro de seus filhos. Com uma média de 66 casos diários, o crescimento de 8% em relação ao ano anterior revela que as políticas de prevenção e busca ainda patinam diante da sofisticação do crime organizado e da vulnerabilidade social.

O cenário torna-se ainda mais sombrio quando analisamos o recorte de gênero e a finalidade desses desaparecimentos. As meninas são as principais vítimas, representando 61% dos casos (14.658 registros). Especialistas e autoridades alertam que, por trás dessa “ausência de paradeiro” — definida pela Lei 13.812/2019 — escondem-se engrenagens perversas: o tráfico para fins de exploração sexual, o trabalho escravo infantil, a adoção ilegal e, no limite da crueldade humana, a venda para extração de órgãos.

O mapa da ausência: do Sudeste às fronteiras do Norte

Embora o estado de São Paulo concentre o maior volume absoluto de casos — com 20.546 registros, o que equivale a 24% do total nacional —, é nas extremidades do país que o problema se mostra proporcionalmente mais devastador. Roraima lidera a taxa por habitante, com 78,1 desaparecimentos por 100 mil habitantes, seguido de perto pelo Distrito Federal e pelo Rio Grande do Sul.

O Paraná inseriu-se nesse cenário crítico em 2025 ao registrar 6.455 desaparecimentos totais, o que representa uma média alarmante de 18 pessoas sumindo por dia no estado. Com uma taxa elevada de 54,29 casos para cada 100 mil habitantes, o território paranaense consolida-se entre os maiores registros do Brasil. A maioria das vítimas, tanto nacionalmente quanto no Paraná, é composta por mulheres, o que exige atenção redobrada para a dinâmica das cidades de fronteira e a segurança das populações vulneráveis.

Essa disparidade indica realidades distintas: se nos grandes centros urbanos o aliciamento digital e os conflitos familiares são vetores fortes, nas regiões de fronteira e em estados menos povoados, a ação de quadrilhas transnacionais encontra terreno fértil na porosidade das divisas e na escassez de delegacias especializadas. Até janeiro de 2026, estimativas indicam que os menores desaparecidos no Brasil já ultrapassam a marca de 50 mil — uma população inteira de crianças que o Estado não sabe onde está.

A fronteira sob alerta: o cenário no Paraguai e na Argentina

O drama que atravessa nossas pontes não respeita limites geográficos. Nas cidades que compõem o entorno imediato de Foz do Iguaçu — Ciudad del Este, Presidente Franco, Minga Guazú e Naranjal —, o desaparecimento de pessoas tornou-se uma preocupação crescente.

O cenário paraguaio, embora numericamente inferior ao brasileiro, revela um crescimento estatístico que acende o alerta máximo nas autoridades da região. Dados da Polícia Nacional e de associações de familiares indicam que o país vive uma crise persistente: em 2022, o Paraguai registrou uma média alarmante de duas crianças desaparecidas por dia, totalizando 1.200 casos de menores de 18 anos. No entanto, entidades locais sugerem subnotificação, apontando que o número real pode ter chegado a 1.912 ocorrências naquele período.

A tendência de incerteza seguiu nos anos posteriores. Em 2023, foram denunciados 904 casos envolvendo menores, dos quais apenas 520 foram localizados. Já no primeiro semestre de 2024, o balanço parcial registrou 352 novos casos; desse total, 154 jovens foram encontrados, mas 197 crianças e adolescentes permanecem com o paradeiro ignorado.

A incidência desses crimes concentra-se em polos estratégicos como Assunção, Central, Caaguazú e, crucialmente, no Alto Paraná, vizinho direto de Foz do Iguaçu. Essa realidade expõe a urgência de investigações transnacionais e de políticas de proteção mais eficazes, uma vez que a busca por desaparecidos na fronteira exige, frequentemente, o apoio de forças internacionais para combater redes de tráfico que operam entre os dois países.

Na Argentina, o cenário apresenta cifras distintas, com o registro de 2.231 desaparecidos em 2024, o que corresponde a 0,0048% dos seus 46 milhões de habitantes. Esses números, somados à realidade brasileira, expõem que a nossa região trinacional precisa de uma ação coordenada e transnacional para combater o tráfico de pessoas e garantir a proteção de quem vive em vulnerabilidade.

Um mercado de vidas: tráfico, órgãos e adoção ilegal

O desaparecimento infantil no Brasil e nos países vizinhos é o primeiro passo de um crime multifacetado. A “venda de crianças”, tipificada como forma grave de tráfico de pessoas, sujeita os envolvidos a penas rigorosas de prisão. Contudo, a rede de agenciadores e traficantes opera muitas vezes sob o disfarce da adoção ilegal ou do auxílio material a famílias em extrema pobreza.

A troca de um bebê por dinheiro é crime inafiançável e fere convenções internacionais da Unicef. O alerta sobre a venda de órgãos, embora tratado por vezes com ceticismo, permanece no radar das autoridades de inteligência como uma das destinações possíveis em redes de tráfico humano internacional, que movimenta bilhões de dólares anualmente ao redor do globo.

O que fazer? Ferramentas de busca e canais de denúncia

Para as famílias que enfrentam o pesadelo do desaparecimento, o tempo é o maior inimigo. A orientação das autoridades é clara: não é necessário esperar 24 horas para registrar o Boletim de Ocorrência. A busca deve ser imediata.

Canais e Ferramentas Oficiais:

O combate ao desaparecimento infantil exige mais do que tecnologia; exige o fim da invisibilidade. Cada foto compartilhada, cada denúncia feita pelo Disque 100 e cada cobrança por fiscalização nas fronteiras é um passo para que essas crianças deixem de ser apenas uma estatística de “paradeiro desconhecido” e voltem para a proteção de seus lares.

Serviço e links úteis

 

Este texto reflete a opinião institucional do portal Fronteira Livre sobre o tema abordado.