RIO DE JANEIRO (RJ) – Há datas que o calendário não consegue digerir. O dia 7 de abril é uma ferida aberta na história brasileira. Há exatos 15 anos, o país assistia, estarrecido, ao Massacre de Realengo, quando um ex-aluno invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira para transformar um espaço de emancipação em um cenário de barbárie. Doze crianças, entre 13 e 15 anos, tiveram seus sonhos interrompidos: potenciais engenheiras, atletas, artistas e cientistas que foram silenciadas pela face mais cruel da desumanização.

Naquela manhã de quinta-feira, às 8h15, o agressor utilizou a fachada da cordialidade para entrar na instituição que celebrava 40 anos. Armado com dois revólveres — adquiridos pela quantia irrisória de R$ 1.460, evidenciando a facilidade com que instrumentos de morte circulam em nossa sociedade —, ele invadiu salas de aula e disparou à queima-roupa. O alvo preferencial foram as meninas, em um ataque que já demonstrava contornos de um ódio estrutural.

A tragédia em Realengo tentou ferir a premissa fundamental da escola: a de ser um território sagrado de proteção e liberdade. No entanto, para nós, que acreditamos na educação como ferramenta de revolução social, a permanência da Tasso da Silveira e de tantas outras escolas públicas brasileiras é um ato de rebeldia. A escola não é definida pelo horror que um dia tentou silenciá-la, mas pela resistência cotidiana de quem se recusa a desistir.

Mesmo diante de salários aviltantes, infraestruturas precárias e o peso de um mundo que insiste em priorizar a repressão sobre o aprendizado, os professores retornam às salas. Eles são os verdadeiros revolucionários deste século. Enquanto o sistema oferece o descarte e a violência, o educador oferece o horizonte. Ensinar no Brasil não é apenas transmitir currículo; é um ato político de oferecer ao jovem a capacidade de escolher seu próprio destino, arrancando-o da lógica de servidão.

Quinze anos de dívidas e lições

Após uma década e meia, o Estado brasileiro ainda deve respostas profundas sobre a segurança de seus jovens e o amparo à saúde mental, mas a escola, por si só, oferece o caminho. Tasso da Silveira, o poeta e professor que dá nome à unidade, acreditava na força da palavra. É nessa força que o país precisa se ancorar para que o luto se transforme em combustível para uma formação humana que priorize a vida sobre o capital e o armamento.

A escola permanece. Ela insiste em abrir janelas onde o sistema tenta erguer muros. O massacre de 12 estudantes feriu o coração do povo, mas a cada aula iniciada, a cada poema descoberto e a cada jovem que percebe que o mundo é maior do que a opressão de sua rua, a escola vence a barbárie. Recordar o 7 de abril é um dever de memória para que nunca mais se repita, mas é, acima de tudo, um compromisso com a construção de uma sociedade onde nenhuma mochila precise carregar o peso do medo.

 

Confira a lista dos óbitos:

Karine Lorraine Chagas de Oliveira, de 14 anos

Rafael Pereira da Silva, de 14 anos

Milena dos Santos Nascimento, de 14 anos

Mariana Rocha de Souza, de 12 anos

Larissa dos Santos Atanásio, 13 anos

Bianca Rocha Tavares, de 13 anos

Luiza Paula da Silveira Machado, de 14 anos

Laryssa Silva Martins, 13 anos

Géssica Guedes Pereira, de idade não divulgada

Samira Pires Ribeiro, 13 anos

Ana Carolina Pacheco da Silva, 13 anos

Igor Moraes da Silva, 13 anos

 

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