No dia 4 de dezembro de 2011, o Brasil perdeu um de seus maiores ídolos do futebol: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, conhecido como Dr. Sócrates ou Magrão. Ele faleceu em São Paulo, deixando um legado como jogador, médico e ativista. Sua morte ocorreu em um momento simbólico, quando o Corinthians, seu time do coração, conquistava o pentacampeonato brasileiro.
A Trajetória de um Ícone
Sócrates nasceu em 19 de fevereiro de 1954, em Belém do Pará, e começou sua carreira no Botafogo de Ribeirão Preto aos 17 anos, enquanto também cursava medicina. Formou-se em 1977, ano em que se destacou como artilheiro da Taça Cidade de São Paulo. No mesmo ano, transferiu-se para o Corinthians, onde se tornou uma figura central na Democracia Corinthiana, um movimento que promovia a participação dos jogadores nas decisões do clube.
A estreia de Sócrates pela seleção brasileira ocorreu em 1979, em um amistoso contra o Paraguai, e ele se destacou na Copa do Mundo de 1982, sendo considerado uma das estrelas da equipe. Apesar de sua carreira brilhante, enfrentou desafios, incluindo uma passagem difícil pela Fiorentina, na Itália, e um pênalti perdido que resultou na eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 1986.

Ativismo e Luta pela Democracia
Em um contexto em que a população brasileira vivia sob opressão política e econômica, Sócrates e seus colegas criaram um sistema de governança interna que permitia a participação de todos os membros do clube, desde os roupeiros até a presidência. O lema do movimento, “ganhar ou perder, mas sempre com democracia”, refletia a proposta de um ambiente em que cada opinião fosse respeitada e considerada.
Sócrates explicava a essência do movimento: “A ideia era a seguinte, vamos participar todos das decisões coletivas, vamos tentar fazer com que nada venha de cima para baixo, porque as melhores soluções sempre estão com quem está com a mão na massa.” Essa abordagem não apenas transformou o Corínthians, mas também se conectou às lutas populares contra a ditadura militar, destacando a importância da democracia em um momento em que o povo não tinha voz.
Além de seu papel dentro do clube, Sócrates e seus companheiros se engajaram ativamente na campanha “Diretas Já”, promovendo discursos em comícios e usando suas camisas para exibir palavras de ordem pela democracia. O punho cerrado e erguido em comemorações de gols tornou-se um símbolo da luta da classe trabalhadora.
Após a fase da Democracia Corinthiana, Sócrates jogou na Europa e retornou ao Brasil, atuando em diversos clubes até encerrar sua carreira. Sua militância continuou, e ele se tornou um defensor dos direitos da classe trabalhadora e do socialismo, expressando sua admiração por Cuba e Fidel Castro, a quem via como um modelo de sociedade ideal.

Mesmo após sua aposentadoria, Sócrates utilizou sua influência para criticar as injustiças sociais no Brasil. Em seus últimos artigos, ele denunciou os abusos durante os preparativos para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, evidenciando os despejos de famílias que viviam nas proximidades dos estádios e o uso de dinheiro público em benefício do capital privado.
Sócrates acreditava que os recursos destinados a esses eventos deveriam ser direcionados à educação e ao bem-estar do povo brasileiro, e não ao enriquecimento de poucos. Seu legado como atleta e ativista permanece vivo, inspirando futuras gerações a lutar pela justiça social e pelos direitos do povo.
Problemas de Saúde
Sócrates foi internado em agosto de 2011 devido a uma hemorragia digestiva, revelando problemas relacionados ao consumo de álcool. Após sua segunda internação, ele faleceu devido a um choque séptico durante sua terceira internação no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Na ocasião, ele havia ingerido um estrogonofe estragado, que causou uma intoxicação alimentar. Embora seus companheiros de refeição tenham se recuperado, Sócrates já estava com a saúde muito debilitada.
Sócrates é lembrado não apenas por sua habilidade em campo, mas também por sua inteligência e compromisso social. Ele é considerado um dos melhores jogadores da história do Brasil e, segundo a FIFA, um dos melhores do mundo. Seu irmão, Raí, também se destacou no futebol, jogando pelo rival São Paulo.
A memória de Sócrates ainda ressoa fortemente entre os torcedores e na história do futebol brasileiro, simbolizando não apenas o talento, mas também a luta por justiça e igualdade no esporte. Seu impacto é sentido tanto em campo quanto fora dele, fazendo dele uma figura eterna na cultura esportiva do Brasil.