BOGOTÁ | COLÔMBIA – Em um discurso marcado pela tônica da emancipação econômica e política, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou, neste sábado (21), a necessidade de as nações da América Latina, Caribe e África agirem como blocos soberanos diante das potências globais. Durante o I Fórum de Alto Nível CELAC-África, Lula foi enfático ao declarar que a era do colonialismo acabou e que a integridade territorial e as decisões estratégicas dessas regiões devem ser respeitadas.
“Nós não somos mais países colonizados. Nós conquistamos soberania com a nossa independência. Não podemos permitir que alguém possa se intrometer e ferir a integridade territorial de cada país”, disparou o mandatário brasileiro.
O contraste ético: bilhões para a guerra, milhões com fome
Lula apresentou números alarmantes para ilustrar a desigualdade nas prioridades globais. Segundo o presidente, enquanto o mundo investiu US$ 2,7 trilhões em armamentos e guerras em 2025, cerca de 630 milhões de pessoas ainda passam fome no planeta.
O presidente convocou os líderes presentes a transformarem a “guerra fratricida” em uma guerra contra o analfabetismo, a falta de energia e a pobreza extrema. Na América Latina e África, são 340 milhões de cidadãos em situação de insegurança alimentar, um cenário que Lula classificou como “inaceitável” para um mundo que produz alimentos em abundância.
Reparação histórica e o fim do “Neoextrativismo”

Um dos pontos altos do pronunciamento foi a defesa dos recursos naturais. Lula alertou que a transição energética global não pode se transformar em um novo ciclo de exploração colonial (o “neoextrativismo”). Ele defendeu que países detentores de terras raras e minerais críticos — essenciais para baterias e alta tecnologia — devem industrializar esses ativos em seus próprios territórios.
“É a chance da Bolívia, da África e da América Latina não aceitarem ser apenas exportadores de minerais para que a gente tenha a chance de desenvolver os nossos países.”
Sobre a herança da escravidão, o presidente admitiu que, embora o Brasil tenha avançado em cotas e políticas de igualdade, o país ainda está longe de pagar sua dívida histórica por 350 anos de escravidão. “Enfrentar, unidos, a herança colonial é o melhor tributo que podemos prestar à nossa história”, afirmou, citando o geógrafo Milton Santos para definir as regiões como um “mesmo território existencial” de resistência.
Os 5 eixos da Aliança Sul-Sul
Para estruturar a aproximação entre a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e a União Africana (UA), Lula propôs cinco frentes de ação imediata:
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Combate à Fome: Expansão da Aliança Global contra a Fome (lançada no G20) e uso da expertise da Embrapa para transformar a África em potência produtora de alimentos.
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Mudança do Clima: Proteção conjunta das florestas da Amazônia e do Congo, além da operacionalização do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que já mobilizou US$ 7 bilhões.
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Transição Energética: Criação de um mercado internacional de biocombustíveis e exploração soberana de minerais estratégicos.
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Inteligência Artificial (IA): Lula anunciou US$ 30 milhões em linhas de financiamento brasileiras para projetos conjuntos de IA e infraestrutura digital com foco em governança de dados.
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Comércio e Investimento: Sinergia entre o BID e o Banco Africano de Desenvolvimento para financiar projetos de infraestrutura regional.
Reforma da ONU e o “Atlântico Sul de Paz”
Ao encerrar, Lula criticou a paralisia do Conselho de Segurança da ONU diante dos conflitos na Ucrânia, Gaza e Irã, reforçando que a América Latina e a África seguem sem representação adequada no órgão. O presidente anunciou que o Brasil organizará, em 9 de abril, uma reunião ministerial da ZOPACAS (Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul) para garantir que o oceano que une os dois continentes permaneça livre de disputas geopolíticas alheias.
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