As últimas notícias informam sobre as renúncias na maioria dos altos cargos do poder executivo, em uma mudança de direção para enfrentar a reta final do governo nacional.

Passam os dias e o foco do debate político continua concentrado nas consequências deixadas pelo polêmico conselho de ministros do dia 4 de fevereiro de 2025. O curioso neste episódio é que, para o bem ou para o mal, o presidente Gustavo Petro sabe que a agenda do país gira em torno de sua iniciativa.

Como se fosse uma implosão controlada, as últimas notícias informam sobre as renúncias em grande parte dos altos cargos do poder executivo, em uma espécie de golpe de leme na reta final do Governo nacional. E embora a espuma tenda a baixar por conta da viagem que o chefe de Estado fará a Dubai, os efeitos colaterais continuam movimentando a política colombiana.

Até o momento, a única certeza é que o segundo capítulo do conselho de ministros televisionado ficou em suspenso e que a recomposição do gabinete continua sendo um enigma.

Papaya partida[1]

Na data de impressão desta edição, é fato que muita água já correu debaixo da ponte. Após o exercício midiático do conselho de ministros, nunca antes experimentado por algum governo, as análises têm saturado os espaços. A maioria dessas análises se concentrou em destacar o que o fracassado piloto deixou evidente: um Governo fragmentado e fraco, que naufraga por conta de suas próprias contradições e cuja recomposição será mediada por lideranças que representam o status quo, e não um projeto de mudança política. A papaya servida, papaya partida.

Mas, além dessa perspectiva aparentemente lógica e incontestável, a análise deve transcender e não se limitar ao roteiro massificado pelos representantes do Estabelecimento. No fundo, essa crise deixou claro que, além de ter fortes tensões, o Governo nacional enfrenta a reta final de seu mandato e que a angústia do presidente é cumprir o prometido ao povo. As expectativas continuam muito altas, e Gustavo Petro não quer falhar.

As metas do PND

Por isso, para o Governo nacional, mas principalmente para o presidente Petro, o cumprimento das metas do Plano Nacional de Desenvolvimento ‘Colômbia, Potência da Vida’ tornou-se uma espécie de obsessão. O mandatário disse que o novo gabinete ministerial se concentrará no cumprimento das bases de políticas públicas formuladas pelo Executivo.

Embora no episódio televisionado do dia 4 de fevereiro o documento em debate se referisse aos compromissos assumidos pelo chefe de Estado com a cidadania em suas apresentações públicas, neste momento o foco do Governo nacional serão as metas do PND para garantir sua concretização. A responsabilidade, como foi dito durante a campanha, é mudar positivamente a vida das pessoas.

Mas quais são os objetivos que o Governo de Gustavo Petro se propôs a alcançar? Em resumo, são: superar a pobreza extrema, eliminar a fome na primeira infância, garantir o direito humano à alimentação, entrega massiva de terras, formalização da pequena propriedade, aceleração do cadastro multipropósito, vias terciárias para conectar territórios, transição energética, frear o desmatamento, diversificar as exportações, impulsionar a economia popular, assegurar cobertura de 60% no ensino superior, entre outros propósitos.

São metas impossíveis? Em princípio, a resposta é não. No entanto, ao considerar que cada uma delas tem indicadores de cumprimento com alto grau de rigor, todo esse episódio midiático deixa uma orientação positiva. O Governo se exigirá ao máximo para executar os planos, programas e projetos acordados coletivamente com o povo.

Outro assunto prioritário é o futuro das reformas sociais. Com a reforma da previdência aprovada, faltam os projetos de mudanças no sistema de saúde e no regime trabalhista. Para isso, será necessário um novo acordo com as forças que têm representação no Congresso e, certamente, a recomposição do gabinete seguirá nessa direção.

A unidade da esquerda

Por mais que pareça um manual, em alguns momentos perde-se o foco sobre uma realidade na política. Nenhum Governo é homogêneo, muito menos quando se trata de uma coalizão, como é o caso do atual processo no interior do Executivo nacional, onde o Pacto Histórico não é o único partido do Governo.

A exposição das discussões internas, o chamado para renúncias protocolares, as saídas para a mídia de alguns funcionários do poder executivo, as incertezas sobre o que será o ano e meio que resta do exercício do Governo, o período eleitoral que já começou, entre outras variáveis, desenham grandes desafios para o momento atual.

Esses desafios terão que ser assumidos com cabeça fria, especialmente pelos setores alternativos e de esquerda, que têm a obrigação de dar continuidade à “carga de cavalaria” que lhes permitiu chegar tão longe.

“Aqui não há outra alternativa senão vencer. Uns na política de rua, unindo o povo, e outros aqui, cumprindo o programa que beneficiará o povo e seus jovens, rompendo profundamente os mecanismos das máfias dentro do Estado: a corrupção”, publicou o presidente Gustavo Petro no X.

A mensagem parece acalmar as águas de uma tempestade que aparentemente está terminando. Sem dúvida, em todo esse episódio, o grande afetado não foi apenas o funcionamento interno do Governo, mas também a unidade das forças de esquerda que tentam avançar rumo ao processo eleitoral de 2026.

Se o momento prioriza a mobilização de todos os recursos para alcançar os objetivos, talvez seja bom recordar as reflexões que o filósofo marxista Antonio Gramsci fez da prisão: “Quando só importam as posições decisivas, então se passa à guerra de cerco, comprimida, difícil, na qual são necessárias qualidades excepcionais de paciência e espírito de invenção”.

Simón Palacio
@Simonhablando

 

[1] A tradução literal seria “mamão partido”, a expressão é frequentemente usada para se referir a uma situação em que alguém deixa uma “oportunidade fácil” ou algo “ao alcance” de outra pessoa, e esta aproveita a ocasião.

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