As mulheres ocuparam as ruas para protestar contra a cultura do estupro. Nesta quarta-feira (1º), em São Paulo, um grande ato reuniu milhares de manifestantes na Avenida Paulista, seguindo em caminhada pelas principais vias centrais da cidade. Em um momento de forte carga emocional, as presentes entoaram juntas uma contagem de 1 a 33 — uma referência direta ao número de homens que participaram de um estupro coletivo ocorrido em maio, no Rio de Janeiro, contra uma adolescente de 16 anos.

O peso simbólico do protesto levou muitas jovens à linha de frente, onde alternavam gritos de resistência com lágrimas de indignação. O ato é parte de uma organização social crescente desde outubro de 2015, no movimento batizado de Primavera Feminista, que ganhou força ao se manifestar contra projetos de lei que dificultam o acesso ao aborto legal em casos de violência sexual.

O enfrentamento à cultura do estupro e ao machismo

A manifestação não foi apenas uma resposta ao crime no Rio de Janeiro, mas uma oportunidade para explicar e enfrentar o conceito de cultura do estupro na sociedade brasileira. As queixas apresentadas revelam pontos de convergência: o cansaço perante as microagressões cotidianas, a impossibilidade de decisão sobre o próprio corpo e a falta de representação feminina no governo — agravada pelo fato de o presidente interino Michel Temer não ter nomeado mulheres para seus ministérios.

Dez mulheres de diferentes origens e idades compartilharam suas perspectivas sobre a luta. Uma das manifestantes destacou a preocupação com o futuro das próximas gerações: “Tenho uma filha e dois filhos. Não quero ter medo que minha filha saia na rua. Quero que ela tenha direito a escolher, e hoje não temos esse direito”.

O despertar do feminismo e a desconstrução social

Para muitas participantes, reconhecer-se feminista foi um processo de desconstrução de valores familiares e sociais. “Não é fácil admitir certas coisas que vêm da sua criação. É uma caminhada longa até se dar conta do que acontece com as mulheres”, relatou uma das ouvidas. Outra manifestante, filha de feminista, pontuou que a opressão atinge mais da metade da população mundial e que, em qualquer setor social, as condições para as mulheres são historicamente piores.

O termo “cultura do estupro” foi definido pelas entrevistadas como uma estrutura que enxerga o corpo feminino como um objeto de prazer, muitas vezes legitimado pela publicidade e por discursos sutis entre amigos e familiares. Para uma bacharel em Direito, o próprio sistema jurídico teve papel na legitimação desse papel de objeto, tendo agora a obrigação de rever esse posicionamento social.

Resistência e a busca por igualdade

A resistência ao termo “feminista” também foi debatida. Algumas acreditam que há um descrédito proposital dos movimentos sociais para delegitimar a luta, pintando-a como violenta. “O feminismo quer a igualdade entre homens, mulheres e crianças. O feminismo é amor, em contraponto ao ódio. Somos o oposto do mundo patriarcal de dominação”, concluiu uma manifestante.

O ato encerrou-se com a afirmação de que o problema, finalmente, passou a ser enfrentado abertamente no Brasil, criando uma narrativa de resistência que busca transformar a dor em mudanças legislativas e culturais profundas.

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