São Paulo, SP – Paulistano de nascimento e carioca por escolha, Manoel Carlos marcou a história da televisão brasileira ao retratar, ao longo de mais de seis décadas, a vida cotidiana, os conflitos familiares e os dilemas afetivos da sociedade brasileira, especialmente do Rio de Janeiro. Seu nome tornou-se sinônimo de tramas sensíveis, personagens complexos e das célebres “Helenas”, figuras femininas recorrentes em suas novelas.
A carreira do autor começou ainda nos anos 1950. Sua primeira novela, Helena, teve o capítulo inaugural exibido em 1952, na inauguração da TV Paulista. Na sequência, trabalhou no Grande Teatro Tupi, entre 1953 e 1961, escrevendo telepeças. Também foi roteirista do Chico Anysio Show, na TV Rio, além de colaborar com programas como o Programa da Hebe e Família Trapo, ambos na Record. Na TV Globo, escreveu Maria, Maria, sua primeira novela na emissora.
Nos anos 2000, Manoel Carlos consolidou seu prestígio ao assinar novelas de grande audiência e repercussão social, como Laços de Família, Mulheres Apaixonadas, Páginas da Vida, Viver a Vida e Em Família, exibida em 2014. Também escreveu as minisséries Presença de Anita (2001) e Maysa: Quando Fala o Coração (2009). Em 2015, atuou como supervisor de texto da série Não se Apega, Não, exibida no Fantástico, programa do qual foi diretor-geral em 1973.
As personagens chamadas Helena atravessaram gerações e se tornaram uma das marcas mais reconhecidas da obra do autor. O início e o encerramento desse ciclo foram protagonizados por mãe e filha. Lílian Lemmertz interpretou a primeira Helena em Baila Comigo, exibida em 1981, enquanto Júlia Lemmertz encerrou a tradição em Em Família, em 2014.
Maneco, como era carinhosamente conhecido, escreveu o papel da primeira Helena especialmente para Lílian Lemmertz, inspirando-se em vivências pessoais.
“Era a história de uma mãe que se sacrificava por aquele filho e por aquele amor, aquela mãezona, que era a minha mãe. A Lílian era assim. E esse papel foi muito escrito para ela. Eu escrevia com a voz dela no meu ouvido.”
Anos depois, o próprio autor revelou o desejo de concluir simbolicamente o ciclo das Helenas com Júlia Lemmertz, criando uma ponte entre mãe e filha dentro de sua dramaturgia. “Eu fecharia esse ciclo de Helenas com uma boa história para essa Helena da Júlia Lemmertz.”
Além de Lílian e Júlia, outras atrizes deram vida às Helenas de Manoel Carlos, entre elas Maitê Proença, Regina Duarte, Vera Fischer, Christiane Torloni e Taís Araújo, personagens que, em diferentes histórias, representaram a força do amor, os conflitos íntimos e os dilemas da vida cotidiana.
Ao longo de uma carreira de cerca de 60 anos, Manoel Carlos produziu obras marcantes além das novelas centradas nas Helenas. Seu trabalho inclui minisséries como Malu Mulher (1980), Presença de Anita (2001) e Maysa – Quando Fala o Coração (2009), além de novelas como História de Amor, Por Amor, Laços de Família e Mulheres Apaixonadas.
O autor costumava explicar sua abordagem criativa a partir do contraste entre drama e cenário. “Situo as minhas novelas no Rio de Janeiro. Faço coisas muito fortes, sob um céu muito azul. As tragédias e os dramas acontecem, mas o dia está lindo. A praia e o espírito carioca dão uma coloração rosa ao contexto cinzento, mas o público acaba absorvendo as tramas de maneira mais leve.”
Manoel Carlos era filho do comerciante José Maria Gonçalves de Almeida e da professora Olga de Azevedo Gonçalves de Almeida. Ele deixa duas filhas, entre elas a atriz Júlia Almeida, que desde pequena acompanhava o pai e chegou a auxiliá-lo na escrita de cenas.
Em janeiro de 2025, Júlia Almeida informou, por meio de publicação nas redes sociais, que o pai havia passado por um procedimento médico e se recuperava em casa, acompanhado por equipe médica e pela esposa, Elisabety Gonçalvez, com quem era casado desde 1981.
Ela explicou que a Doença de Parkinson, diagnosticada em 2019, é degenerativa e se manifesta de formas distintas em cada pessoa. No caso do autor, o processo foi marcado pelo recolhimento. “Ele não só estava bem, como estava exatamente como pediu.”
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