Foz do Iguaçu, PR – Um equipamento capaz de ampliar amostras em centenas de milhares de vezes e revelar estruturas na escala de nanômetros integra as ferramentas utilizadas pela Itaipu Binacional no monitoramento do concreto e na segurança da barragem. Instalado na Divisão de Obras Civis (SOCC.DT), no Laboratório de Concreto, o Microscópio Eletrônico de Varredura (MEV) permite análises morfológicas e químicas de amostras estruturais e de materiais utilizados na usina.
O técnico da Divisão de Obras Civis, Maurício Kazuto Ichikawa, explica que o equipamento funciona de maneira diferente dos microscópios ópticos tradicionais.
“Em vez de lentes de vidro, o MEV utiliza feixe de elétrons. Esses elétrons são acelerados e varrem a amostra ponto a ponto. A interação com os elétrons do material gera sinais que são captados por detectores e transformados em imagem digital”, detalha.
A principal vantagem do MEV está na alta resolução. O equipamento consegue distinguir estruturas na ordem de nanômetros, permitindo a observação de detalhes invisíveis a olho nu ou mesmo em microscópios convencionais. Embora possa atingir ampliações de até um milhão de vezes, o diferencial também está na capacidade de identificar elementos químicos presentes na amostra.
Apoio à segurança da barragem
Na rotina da Divisão de Obras Civis, o microscópio eletrônico é utilizado principalmente em estudos relacionados ao concreto e aos materiais empregados nas estruturas da barragem. As análises fazem parte de um conjunto de ensaios físicos, químicos e mecânicos realizados pela área técnica.
O equipamento também atende demandas de outras divisões da empresa nas duas margens da usina, além de apoiar pesquisas desenvolvidas em convênios da binacional com o Itaipu Parquetec e o PTI Paraguai. Nesse contexto, o MEV contribui para estudos técnicos e análises de materiais específicos ligados à operação da usina.
“O MEV é um indicativo importante. Ele ajuda a confirmar se determinado material apresenta os elementos característicos esperados ou previstos por especificação”, explica o técnico.
Os dados obtidos nas análises subsidiam relatórios técnicos elaborados pela SOCC.DT e encaminhados às áreas solicitantes. A partir dessas informações, cada setor avalia os resultados e define eventuais protocolos de acompanhamento ou intervenção.
Preparação e análise das amostras
Para que a análise seja realizada, pequenos fragmentos de materiais são fixados em uma base metálica antes de serem inseridos no microscópio.
“Quando o material a ser estudado não é um condutor elétrico, como é o caso do concreto, ele recebe um revestimento extremamente fino de ouro em outro aparelho. Depois, é fixado na base com uma fita dupla face de carbono, que também é um elemento condutor. Esse procedimento é necessário para fazer a condução elétrica. Sem isso, os elétrons se acumulariam na superfície do material, prejudicando a qualidade da imagem”, explica Maurício.
Dentro do equipamento, o feixe de elétrons realiza a varredura da superfície da amostra. “Quanto mais tempo o feixe permanece em cada ponto, maior a quantidade de informação coletada e melhor a definição da imagem”, acrescenta.
Estrutura cristalina inspira imagem artística
Durante uma das análises, o técnico registrou a imagem de uma estrutura cristalina conhecida como etringita, formada durante o processo de hidratação do concreto. A micrografia imagem de estruturas microscópicas apresentava cristais organizados de forma incomum, lembrando um ninho ou uma rosa.
O fenômeno de reconhecer formas familiares em estímulos aleatórios é conhecido na psicologia como pareidolia.
“Essas associações são naturais. É como enxergar formas nas nuvens. Cada pessoa pode ver algo diferente”, comenta Maurício.
A partir da micrografia original, registrada em tons de cinza, o técnico aplicou técnicas de tratamento digital para colorização, destacando a estrutura principal em amarelo escuro sobre um fundo azul complementar.
“Eu gosto muito de fotografia. Estava em casa editando algumas das minhas fotos, aprendendo novas técnicas no Photoshop, e pensei: ‘por que não colorir a micrografia da rosa?’. Aí que surgiu a ideia”, relata.
A imagem produzida por Maurício foi selecionada em um concurso promovido pela Tescan, fabricante do microscópio eletrônico utilizado no laboratório. A micrografia integrou o calendário oficial da empresa para 2026, após disputa com dezenas de trabalhos enviados por empresas e instituições de todo o país.
A imagem científica chamou atenção pela composição e pelo tratamento artístico aplicado à estrutura cristalina. Para o técnico, o reconhecimento veio como surpresa.
“A gente acaba ficando muito focado na rotina. Fiquei feliz de ver o nosso trabalho representado ali no calendário”, afirma.
A participação no concurso trouxe visibilidade ao trabalho técnico desenvolvido na área de obras civis da Itaipu, onde análises científicas e monitoramento de materiais contribuem para a segurança das estruturas da usina.
Receita Federal apreende R$ 3,8 milhões e 156 kg de droga na fronteira