Nova Délhi, IN – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu, na sexta-feira, 20 de fevereiro, entrevista exclusiva à India Today TV, integrante do India Today Group. Durante quase uma hora de conversa, Lula apresentou posições do Governo do Brasil sobre inteligência artificial, multilateralismo, BRICS, reforma da ONU, relações comerciais e políticas externas, além de destacar avanços no combate à fome e na redução do desmatamento na Amazônia.
O presidente desembarcou em Nova Délhi na quarta-feira anterior para participar da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial e cumprir agendas institucionais no país.
Sobre o uso da tecnologia, Lula afirmou:
“A inteligência artificial tem que estar a serviço do crescimento do país, da melhoria da qualidade dos serviços privados e públicos e, sobretudo, na perspectiva de melhorar as condições de trabalho de toda a humanidade. Nós não podemos permitir que a inteligência artificial possua um dono ou dois donos. Quem tem que assumir a inteligência artificial é a sociedade.”
Inteligência artificial e regulação
Ao comentar os debates realizados na Índia, o presidente destacou a importância da construção de consensos internacionais.
“Na política, se você não faz os debates, se você não faz os encontros, se você não mistura as pessoas, você não consegue construir uma política consensual para atender a maioria das pessoas.”
Ele defendeu a aplicação da inteligência artificial nas áreas de saúde e educação, mas alertou para os riscos de substituição do trabalho humano.
“É preciso tomar muito cuidado para que a inteligência artificial não substitua o trabalho do ser humano.”
Lula também defendeu uma regulação internacional da tecnologia sob coordenação multilateral.
“Tem que ter uma regulamentação rígida. Essa regulação tem que ser feita numa instituição multilateral que tenha o tamanho das Nações Unidas.”
Segundo ele, a regulamentação deve priorizar a proteção de crianças, adolescentes e mulheres.
“Nós não podemos permitir que a inteligência artificial seja utilizada para causar danos à intimidade das pessoas ou provocar violência.”
BRICS e multilateralismo
O presidente classificou o BRICS como uma das iniciativas mais relevantes das últimas décadas.
“O BRICS foi uma das coisas mais importantes criadas nas últimas três décadas. Representa o Sul Global.”
Ele citou a relevância de países como China e Índia dentro do bloco e defendeu o fortalecimento do multilateralismo para evitar conflitos internacionais.
“O Brasil não quer uma segunda Guerra Fria. Quer comercializar com os Estados Unidos, com a China, com a Índia, com a Rússia e com todos os países do mundo.”
Relação Brasil-Índia
Lula afirmou que pretende ampliar as relações políticas, culturais e comerciais entre os dois países. Ele destacou a presença de cerca de 300 empresários brasileiros na comitiva e mais de 300 empresários indianos inscritos em encontro empresarial.
“Brasil e Índia não podem ter apenas 15 bilhões de dólares de fluxo de comércio exterior. Precisamos ter 30 ou 40 bilhões, pelo tamanho das nossas economias.”
O presidente citou ainda a expansão da Embraer na Índia.
“A Embraer vai montar uma fábrica aqui na Índia. É isso que precisa acontecer entre Brasil e Índia.”
Ao reforçar o papel político dos dois países, declarou:
“Somos as duas maiores democracias do Sul Global, portanto temos que dar bons exemplos.”
Venezuela e soberania
Ao abordar a situação na Venezuela, Lula reiterou a defesa da soberania nacional e da democracia.
“É inadmissível que um chefe de Estado invada outro país ou que haja ingerência de uma nação em outra.”
Ele afirmou que a prioridade é o restabelecimento democrático no país vizinho. Possível encontro com Trump. Lula confirmou que busca agendar reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“Estou marcando uma conversa com o presidente Trump para que a gente coloque, olhando um no olho do outro, as questões entre o Brasil e os Estados Unidos.”
Segundo o presidente, a pauta deverá incluir combate ao narcotráfico, crime organizado, minerais críticos e terras raras. “Eu quero negociar os interesses do meu Estado, respeitando os interesses do outro Estado.”
Reforma da ONU
O presidente também defendeu mudanças estruturais na Organização das Nações Unidas e no Conselho de Segurança. Ele mencionou o grupo G4, formado por Brasil, Índia, Alemanha e Japão, que pleiteia assento permanente no Conselho.
“A ONU está muito enfraquecida. Nós temos que mudar o funcionamento da ONU para que ela tenha representatividade.”
Lula criticou o aumento global de gastos militares.
“Não é normal o mundo gastar 2 trilhões e 400 bilhões de dólares em armas e não gastar 10% disso para acabar com a fome.”
Amazônia e desmatamento
Sobre meio ambiente, o presidente destacou a redução do desmatamento na Amazônia nos últimos três anos.
“Diminuímos em mais de 50% o desmatamento na Amazônia.”
Ele reafirmou a meta de desmatamento zero até 2030 e citou a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) como instrumento de financiamento da preservação ambiental.
“Nós estamos provando que uma árvore em pé vale mais do que uma árvore derrubada.”
Ao final, Lula mencionou a influência de Mahatma Gandhi em sua trajetória política.
“Minha teoria é a teoria do Mahatma Gandhi, que conquistou a independência da Índia com o exemplo.”
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