Foz do Iguaçu (PR) – Representantes da sociedade civil organizada e do setor produtivo da Tríplice Fronteira formalizaram um posicionamento político-institucional cobrando diálogo direto com o governo federal diante de decisões recentes que vêm impactando a dinâmica econômica, urbana e logística da região formada por Brasil, Paraguai e Argentina. As lideranças alertam que medidas impostas sem escuta local comprometem investimentos, ampliam gargalos e colocam em risco a integração fronteiriça.
A manifestação foi construída no âmbito do Conselho de Desenvolvimento da Região Trinacional do Iguaçu (Codetri) e encaminhada a Gleisi Hoffmann , além de ministérios estratégicos, parlamentares e instâncias diplomáticas. O documento defende a criação de uma agenda permanente de interlocução , capaz de antecipar impactos e alinhar decisões à realidade da fronteira.
Decisões tomadas à distância
Segundo as entidades, a região tem sido afetada por atos administrativos definidos de forma centralizada , sem diálogo com quem opera diariamente o turismo, o comércio internacional e a logística transfronteiriça. Entre os exemplos citados está a tentativa de alteração nas regras de circulação de ônibus turísticos entre os países, anunciada sem planejamento e suspensa apenas após ocorrência regional.
Outro ponto sensível diz respeito à abertura operacional da Perimetral Leste e da Ponte Internacional da Integração , obras aguardadas há décadas, mas que passaram a funcionar sem pactuação prévia sobre fluxos, usos e impactos urbanos. O resultado imediato foi o aumento de filas, congestionamentos e incertezas para trabalhadores, transportadores e visitantes.
As lideranças também apontam que o atraso na conclusão da Rodovia das Cataratas amplia esses efeitos, sobrecarregando acessos urbanos e afetando diretamente a principal porta de entrada turística do destino.
Risco logístico e urbano
O documento chama atenção para a ausência de planejamento integrado em torno do novo Porto Seco de Foz do Iguaçu , cuja entrada em operação, sem obras viárias concomitantes, pode provocar um colapso no trânsito da região leste da cidade. Para os signatários, decisões fragmentadas transformam investimentos estruturantes em novos problemas urbanos.
Além disso, o fechamento de acessos no entorno do bairro Jardim Jupira, na BR-277, é citado como exemplo de medida imposta sem diálogo com moradores, comerciantes e gestores locais , gerando impactos sociais evitáveis.
Voz da região
Presidente do Codetri, Roni Temp afirmou que o posicionamento expressa um acúmulo histórico de frustrações com decisões tomadas longe da realidade fronteiriça.
“Quem decide sobre a fronteira, muitas vezes, não vive a fronteira. Isso gera soluções técnicas frágeis e socialmente injustas”, afirmou.
Para ele, a região vive um momento estratégico, com crescimento do comércio internacional, novos investimentos em hotelaria, atrativos turísticos e gastronômicos, além de obras estruturantes em curso.
“Essas conquistas não podem ser fragilizadas por decisões burocráticas. Uma região precisa ser ouvida antes, não apenas informada depois”, completou.
Unidade institucional
Durante o encontro, representantes de diferentes conselhos e entidades reforçaram que a falta de interlocução institucional compromete políticas públicas e afeta cadeias produtivas que sustentam milhares de empregos.
O presidente do Conselho Municipal de Turismo (Comtur), Diogo Marcel Araújo , destacou que a fronteira não pode ser tratada como periferia decisória. Já o presidente do Codefoz, Marcelo Brito , ressaltou a importância da unidade entre a sociedade civil e o setor empresarial diante de decisões externas.
O presidente da ACIFI, Danilo Vendruscolo , lembrou que a região trinacional é um dos principais polos econômicos do Sul do Brasil, com impactos diretos também sobre o Paraguai e a Argentina. Para o Sindetur, representado por Fernando Martin , decisões unilaterais têm se tornado recorrentes, muitas vezes conhecidas apenas pela imprensa.
Impacto além de Foz
O procurador-geral de Santa Terezinha de Itaipu, Osli Machado , cobrou soluções para as filas na BR-277, ressaltando que a sobrecarga afeta municípios integrados por trabalho, serviços e economia. A chefe da PRF em Foz do Iguaçu, Andressa Regene , afirmou que o órgão mantém abertura para o diálogo institucional.
Representando a ABEOC, Paulo Angeli defendeu o direito do destino de participar das decisões sobre sua organização. Pela ABAV-SP, Felipe Gonzalez alertou que problemas na fronteira impactam o turismo nacional. Já Leonardo Quinonez , da ABTI, avaliou que o uso atual da Ponte da Integração não atende ao setor de transporte internacional.
Do lado paraguaio, Ivan Leguizamón , do Codefran, e Linda Taiyen , do Codeleste, relatando impactos do tráfego pesado e destacando que, no Paraguai, o diálogo entre governo e sociedade civil ocorre de forma mais direta.
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