BRASÍLIA (DF) – O uso de recursos públicos para financiar shows sertanejos, muitos deles irrigados por emendas parlamentares, tem provocado questionamentos de órgãos de controle e do Ministério Público em diferentes estados. O modelo, segundo especialistas e autoridades, evidencia um contraste recorrente entre prioridades públicas essenciais e gastos festivos milionários, sobretudo em municípios de baixo orçamento.

O debate ganhou projeção nacional após o cantor Gusttavo Lima cancelar um show de R$ 1,1 milhão em Petrolândia, município de cerca de 34 mil habitantes, depois que veio à tona o escândalo envolvendo o casal ligado à empresa Vai de Bet. O episódio não é isolado e passou a ser tratado por investigadores como parte de um modelo de contratação recorrente.

Municípios pequenos e gastos milionários

No Tocantins, o município de Aguiarnópolis, com aproximadamente 5 mil habitantes, destinou ao menos R$ 1,8 milhão para contratações artísticas em festivais realizados neste ano. O montante representa cerca de 5% do orçamento anual da cidade, sendo R$ 1 milhão proveniente de emendas Pix.

Os gastos ocorreram no mesmo período em que o município enfrentava os efeitos do desabamento da ponte Juscelino Kubitschek, na divisa com o Maranhão, tragédia que deixou dois mortos e 16 desaparecidos.

Investigações no Ceará

No Ceará, o Ministério Público do Ceará instaurou procedimentos para apurar a contratação de shows milionários em municípios com menos de 80 mil habitantes, mesmo diante de demandas sociais urgentes.

Estão sob apuração cidades como Crateús, Aracati, Acaraú, Icó, Baturité e Moraújo. Em muitos desses municípios, os prefeitos eram candidatos à reeleição ou apoiavam aliados políticos.

À CNN Brasil, o promotor Antonio Forte afirmou que esse tipo de despesa pode ferir princípios constitucionais da administração pública, como moralidade, razoabilidade e interesse público.

Levantamento aponta R$ 234 milhões em dez anos

O deputado federal Dimas Gadelha (PT-RJ), médico sanitarista, compilou dados sobre o fluxo de dinheiro público destinado ao circuito sertanejo na última década. Segundo o levantamento, os dez artistas que mais receberam recursos públicos somam R$ 234 milhões.

Conforme o parlamentar, os valores não passaram pelo crivo da Lei Rouanet, mas chegaram aos artistas por meio de emendas parlamentares e contratações diretas de prefeituras e governos estaduais, frequentemente sem o mesmo nível de transparência e prestação de contas exigido nos mecanismos formais de incentivo cultural.

Artistas que mais receberam recursos públicos

“A farra (com dinheiro público) é sertaneja e de direita”, afirmou o deputado.

Rouanet registra recordes e impacto econômico

Apesar de ataques recorrentes de setores da extrema-direita, a Lei Rouanet registrou recordes de captação. Em 2025, até o meio do ano, o mecanismo alcançou R$ 765,9 milhões, o maior volume desde sua criação, em 1991.

A ministra da Cultura, Margareth Menezes, apresentou dados que evidenciam a importância econômica do modelo. Segundo ela, em 2025 foram 4.626 projetos aprovados, com captação de R$ 3 bilhões no triênio 2023–2025 e 22 mil propostas apresentadas apenas neste ano.

Menezes também revelou que um estudo encomendado à Fundação Getulio Vargas será divulgado no início de 2026. A pesquisa indica que para cada R$ 1 investido pela Lei Rouanet, R$ 7 retornam para a economia, com impacto estimado de R$ 25 bilhões no PIB nacional em 2024.

Economia criativa e políticas públicas

A ministra destacou ainda o papel da economia criativa como vetor de emprego e renda em todo o país. “Uma das dimensões da cultura é essa geração de emprego e renda. Em todos os lugares do Brasil há pessoas ganhando a vida com cultura e arte”, afirmou.

A expectativa do governo é ampliar esse impacto a partir de 2026, com a aprovação do Plano Nacional de Cultura, enviado ao Congresso Nacional em novembro. O plano vai orientar as políticas culturais do país pelos próximos dez anos, garantindo direitos previstos na Constituição, como acesso, produção, liberdade de expressão e remuneração justa aos trabalhadores do setor.