Um recente acordo internacional que visa facilitar o acesso a medicamentos genéricos eficazes para a prevenção de infecções por HIV (vírus causador da AIDS) deixou praticamente toda a Latinoamérica de fora. Essa decisão gera preocupação em uma região que enfrenta um aumento significativo de novos casos da doença.

Winnie Byanyima, diretora do Programa das Nações Unidas sobre o HIV/AIDS (UNAIDS), classificou a exclusão como “equivocada e não ética”. Segundo ela, “estão excluindo países de renda média que poderiam produzir e vender esses medicamentos a um custo mais baixo, como Brasil, Peru, México e Argentina. Esses países participaram até mesmo dos ensaios e agora estão sendo marginalizados.”

As farmacêuticas Gilead e ViiV desenvolveram tratamentos preventivos que demonstraram até 95% de eficácia contra o HIV. A Gilead disponibiliza uma injeção a ser administrada duas vezes ao ano, enquanto o produto da ViiV requer uma dose a cada dois meses. Contudo, o elevado custo desses medicamentos impede o acesso amplo: o tratamento da Gilead pode chegar a 40 mil dólares anuais, enquanto os genéricos poderiam custar apenas 40 dólares por ano por pessoa.

A UNAIDS estima que, se 10 milhões de pessoas no mundo tivessem acesso a esses medicamentos até 2025, o objetivo internacional de erradicar o HIV até 2030 poderia ser alcançado. Byanyima expressou sua preocupação: “Estamos muito preocupados porque, ao mesmo tempo que sabemos que temos um medicamento preventivo poderoso e altamente eficaz, vemos a mesma velha história, como o que ocorreu com os antirretrovirais, que levaram dez anos para a comercialização de genéricos, durante os quais doze milhões de africanos morreram esperando que seu preço caísse.”

Ela também destacou os alarmantes aumentos de novas infecções em países como Venezuela e Peru, onde os casos cresceram 98% e 80%, respectivamente, em relação a 2023. Esse cenário torna urgente o acesso a novos métodos de prevenção.

Byanyima explicou que a situação na Venezuela é complexa, envolvendo fatores como o deslocamento de populações e a precariedade do sistema de saúde. No Peru, a falta de conexão ao sistema de saúde e o estigma enfrentado por muitos, especialmente entre a comunidade LGBTQ+, contribuem para essa crise. “Há muitas pessoas gays que buscam ajuda muito tarde e morrem por falta de diagnóstico, então há múltiplos fatores que estamos tentando investigar”, concluiu.