*Por Gabriel “Koba” Xavier – Opinião
Pois é, roubaram algumas joias do Louvre e uma comoção generalizada tomou conta do mundo. Como pode alguém roubar peças tão importantes para a história? Como ousam raptar objetos do museu mais visitado do planeta? Afinal, sua coleção sozinha é capaz de contar a história de todos os povos da humanidade… Mas, afinal, de onde veio tudo isso?
Quando aconteceu a Revolução Francesa, nos últimos anos do século XVIII, o museu já existia como uma grande galeria restrita à nobreza, reunindo as obras adquiridas pelos monarcas franceses ao longo da história. Os republicanos, porém, entendiam que aquele espaço deveria ser aberto ao povo, abrigando “todos os monumentos das ciências e das artes”. Muitos itens pertencentes à nobreza foram confiscados pelos revolucionários e passaram a fazer parte do acervo.
A fome do Louvre, no entanto, não foi saciada. As obras francesas não bastavam — o museu precisava ser universal. Quando Napoleão chegou ao poder, em sua “turnê” pela Europa (sendo aqui, evidentemente, irônico), obras foram saqueadas na Bélgica, Holanda, Prússia, Áustria, Alemanha, Itália e Espanha, todas enviadas para o Louvre. Além disso, sua expedição ao Egito também rendeu alguns “presentes” ao querido museu de Paris: lá, a história passou a ser posse francesa com o sequestro da Pedra de Roseta.
A Península Itálica, berço do Renascimento, foi um dos primeiros alvos. Veneza, cidade conhecida por sua longa história no comércio, nas artes e nas ciências, teve 80% de seus tesouros roubados pelo exército napoleônico. Mas todos sabem que Napoleão saqueou a Itália, certo? Ou você nunca se perguntou por que a Mona Lisa está na França? O povo francês se via no direito de “adquirir” essas peças — afinal, elas estavam nas mãos de monarquias tirânicas. Com seu ideal republicano, a França, “terra da liberdade”, acreditava ter o dever de salvar essas obras.
Vasos gregos, esfinges egípcias, tabuinhas sumérias, tapeçarias otomanas e até o famoso Código de Hamurabi, o primeiro conjunto de leis da história (discutivelmente, é claro), estão no famoso museu. Os holandeses, certamente, adorariam ter de volta as obras de Rembrandt e Vermeer. Acredite: nada disso foi um presente aos franceses.
Mesmo após a derrota de Napoleão, em 1814, os países europeus foram convencidos a não repatriar as obras pilhadas, sob o argumento de preservar a importância de um suposto “museu universal”. Durante todo o século XIX, visitar o Louvre reforçava entre os europeus a ideia de que pertenciam a uma civilização superior — rica e brilhante. Esse pensamento ainda perdura.
No fim das contas, sim, algumas joias foram roubadas do Louvre. Elas estão entre os poucos itens que chegaram lá de forma voluntária. Mas nunca pergunte de onde vieram aquelas pedras preciosas: o acervo do museu foi construído com muito sangue derramado. Suas peças, mesmo reivindicadas pelos antigos donos, em sua maioria não têm previsão de devolução.
O museu realmente conta a história da humanidade — mas não dos antigos mesopotâmicos até os dias de hoje, como se costuma dizer. A história que o Louvre conta é sobre colonialismo, imperialismo, invasão, assassinato e saque. É a narrativa de um pensamento supremacista europeu, que se vê no direito de se apropriar de tudo para contar a história de um mundo em que ele próprio é o protagonista.
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*Gabriel “Koba” Xavier é formado em Teoria, Crítica e História da Arte pela Universidade de Brasília (UnB) e atua como professor e arte-educador. Como divulgador científico, ele aborda a história social da arte no canal Kultura Kritica no YouTube.
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