Foz do Iguaçu, PR – A Itaipu Binacional promove uma nova edição do Treinamento de Formação e Reciclagem de Eletricistas em Linhas Desenergizadas, reunindo profissionais brasileiros e paraguaios da Diretoria Técnica da usina. Iniciado em 2 de março e com término previsto para o dia 27, o curso totaliza 160 horas de aulas teóricas e práticas.

A capacitação ocorre em um ramal de treinamento instalado na margem paraguaia da usina, composto por três torres e dois vãos de linha preservados exclusivamente para atividades formativas. A iniciativa é realizada em parceria com a Fundação do Comitê de Gestão Empresarial (COGE), instituição técnico-científica voltada ao aprimoramento do setor elétrico.

Participam desta edição 12 eletricistas, reforçando o caráter binacional das operações da usina. O treinamento é considerado um dos mais completos do país na modalidade e tem como foco a qualificação de profissionais que atuam em linhas de transmissão de alta tensão, especialmente em situações de risco e baixa frequência operacional.

Apesar de parecer contraintuitivo, intervenções em linhas desenergizadas registram, proporcionalmente, mais acidentes do que atividades em sistemas energizados. A explicação está na redução da percepção de risco.

“Quando a linha está energizada, o eletricista sabe que o erro é zero. Todos usam equipamentos específicos e seguem procedimentos muito rigorosos. Já na linha desligada existem várias armadilhas invisíveis, como indução por linhas paralelas, reenergização acidental ou até descargas atmosféricas”, afirma o engenheiro eletricista Clenio Gontijo Gonçalves Lisboa, instrutor do curso e profissional aposentado de Furnas, atualmente na Axia Energia.

De acordo com o engenheiro eletricista Marcelo Luiz da Silva, da Itaipu, a falsa sensação de segurança é um dos principais fatores de risco nesse tipo de operação.

“O treinamento existe justamente para recalibrar a compreensão desses riscos. Ao simular, em campo real, as mesmas condições das linhas em operação, o objetivo vai além da técnica, pois reforça a interdependência entre os membros da equipe e fortalece a cultura de segurança”, destaca.

Durante o curso, os participantes executam atividades que vão desde reparos e emendas até procedimentos mais complexos, como descida completa de fases em torres de 220 kV e 500 kV, substituição de isoladores, retensionamento, nivelamento e manobras com cabos de feixe quádruplo.

Segundo Marcelo, a capacitação permite antecipar situações que raramente ocorrem na rotina operacional, mas que exigem resposta imediata quando acontecem.

“Existem serviços que podem demorar anos para acontecer. Um rompimento de cabo, por exemplo, pode levar mais de uma década para ocorrer. O treinamento permite simular essas situações para que a equipe esteja preparada quando realmente precisar”, afirma.

Esta é a segunda edição do treinamento. A primeira foi realizada em 2017, sendo pioneira no uso do ramal desenergizado da margem paraguaia, implantado após o seccionamento das linhas que conectavam a usina à subestação da margem esquerda do Rio Paraná, em 2014.

Entre os participantes está o eletricista Antonio Benjamin Alves Serrão, que atua na Itaipu desde 2006 e também integrou a primeira turma.

“Esse treinamento coloca todo mundo no mesmo nível de conhecimento. Quando todos sabem exatamente o que fazer, o trabalho flui melhor e a segurança aumenta”, afirma.

O trabalho em altura exige coordenação constante entre os profissionais, especialmente nas torres de transmissão.

“Um cuida do outro o tempo todo. Se alguém vê que o equipamento de segurança não está bem preso, já alerta. Lá em cima, a equipe precisa funcionar como uma família, completa Serrão.

Além da segurança dos trabalhadores, a capacitação contribui diretamente para a confiabilidade do sistema elétrico que interliga a usina às subestações no Brasil e no Paraguai. Equipes treinadas conseguem realizar intervenções com maior rapidez e precisão, reduzindo riscos de falhas e garantindo a continuidade do fornecimento de energia aos dois países.

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