Cascavel, PR – O Acordo Mercosul-União Europeia foi um dos principais temas do primeiro dia do Show Rural Coopavel 2026, realizado de 9 a 13 de fevereiro, em Cascavel (PR). Considerada uma das maiores feiras do agronegócio brasileiro, a programação incluiu a Mesa de Diálogo “Acordo Mercosul – Perspectivas e Oportunidades”, promovida pela Itaipu Binacional e pelo Governo do Brasil, em parceria com a Coopavel e o Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Sistema Ocepar), nesta segunda-feira (9).
O debate reuniu autoridades governamentais, lideranças do cooperativismo e especialistas em comércio internacional para discutir impactos, desafios e oportunidades do tratado bilateral. Participaram do painel o diretor-geral brasileiro da Itaipu, Enio Verri; a secretária-executiva do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Fernanda Machiavelli; o presidente da Coopavel, Dilvo Grolli; o superintendente do Sistema Ocepar, Robson Leandro Mafioletti; e a doutora em Relações Internacionais e servidora de carreira do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Tatiana Prazeres. A mediação foi conduzida por Gisele Ricobom, assistente do diretor-geral brasileiro da Itaipu.
Fruto de mais de duas décadas de negociações, o acordo integra dois dos maiores blocos econômicos do mundo, somando mais de 700 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto (PIB) conjunto estimado em US$ 22 trilhões. Trata-se do maior tratado comercial já firmado pelo Mercosul e de um dos mais relevantes celebrados pela União Europeia. O texto prevê a eliminação ou redução de tarifas em mais de 90% do comércio bilateral, além da definição de regras comuns para bens industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios.
Ao abordar os reflexos para o Oeste do Paraná, Enio Verri destacou o potencial do acordo para o agronegócio regional.
“O acordo com a União Europeia é um sonho de mais de 20 anos, que pode mudar todo o cenário mundial dos negócios, em especial do agronegócio e, particularmente, do Oeste do Paraná. A região é muito rica na produção agrícola e na suinocultura, setores que têm grande demanda por parte da União Europeia”, afirmou.
Ele ressaltou que o bloco europeu é o segundo maior consumidor do Brasil, atrás apenas da China, mas com exigências rigorosas.
“A União Europeia é o nosso segundo maior consumidor, atrás apenas da China. Mas é um mercado que impõe muitas exigências, desde o uso racional da água, os métodos de produção e de abate, até o cumprimento rigoroso dos prazos de entrega. Por isso, o tempo e a infraestrutura são fundamentais”, explicou.
Segundo Verri, a Itaipu tem investido em infraestrutura e apoio à produção regional para ampliar a competitividade.
“A Itaipu tem sido fundamental ao investir em infraestrutura, como o asfaltamento de estradas rurais, parcerias com prefeituras para geração de energia solar, reduzindo assim os custos de produção. Também atuamos na melhoria da qualidade da água e no apoio à agricultura familiar, que será uma grande parceira desse processo, oferecendo assistência técnica, novas tecnologias e financiamento de equipamentos. Tudo isso contribui para deixar o agronegócio do Oeste do Paraná pronto, como está hoje, para atender às exigências e garantir as entregas que esse acordo vai impor a partir de agora”, concluiu.
Acordo amplia acesso ao mercado europeu
Responsável por detalhar os aspectos técnicos do tratado, Tatiana Prazeres, do MDIC, afirmou que o acordo amplia o acesso do Brasil a um mercado de alto poder de consumo.
“É um acordo que finalmente foi viabilizado e que abre oportunidades concretas para a indústria, para o agronegócio e para a inserção do Brasil em cadeias globais de valor”, declarou.
De acordo com ela, mais de cinco mil produtos brasileiros terão tarifas eliminadas no mercado europeu após a entrada em vigor do tratado, enquanto a abertura do mercado brasileiro ocorrerá de forma gradual.
“Nós trabalhamos para que a redução das tarifas no Brasil fosse mais lenta do que no bloco europeu, justamente para permitir planejamento e adaptação do setor produtivo”, explicou.
Tatiana também destacou compromissos ambientais previstos no texto.
“Esse acordo também faz sentido do ponto de vista da sustentabilidade. Ele traz compromissos nessa área e reflete a visão do governo brasileiro sobre a proteção ambiental, o combate ao desmatamento e a valorização das energias renováveis. O Brasil, que é uma potência nesse setor, tem no acordo o reconhecimento do perfil da sua produção, marcada pelo uso de energias mais limpas, mas que precisam continuar avançando”, observou.
Para ela, o Paraná, um dos estados com maior vocação exportadora do país, pode se beneficiar diretamente.
“Para que essas oportunidades se transformem em negócios reais, é fundamental que produtores e empresas conheçam os termos do acordo e saibam como acessar o mercado europeu”, afirmou, ao sugerir a realização de workshops técnicos sobre tarifas, regras sanitárias e oportunidades por produto.
Cooperativismo e agricultura familiar
O presidente da Coopavel, Dilvo Grolli, defendeu o avanço das exportações de produtos com maior valor agregado. Ele destacou a balança comercial positiva do agronegócio e a competitividade brasileira no mercado internacional, apontando que a industrialização amplia a geração de renda, empregos e desenvolvimento regional. Segundo Grolli, o fortalecimento do diálogo entre governo, cooperativas e parceiros internacionais é estratégico para ampliar cadeias produtivas e abrir espaço para produtos industrializados.
Na mesma linha, o superintendente do Sistema Ocepar, Robson Leandro Mafioletti, afirmou que o cooperativismo é um dos motores do desenvolvimento paranaense. Ele destacou que a organização coletiva permite que pequenos e médios produtores acessem mercados globais, agreguem valor à produção e gerem impactos econômicos significativos. O sistema cooperativo paranaense responde por parcela relevante da produção nacional de grãos, carnes e agroindústrias, além de manter milhares de empregos diretos.
A secretária-executiva do MDA, Fernanda Machiavelli, apresentou a perspectiva da agricultura familiar nas negociações, que passou a integrar ativamente o processo em 2023, após a recriação do ministério. Segundo ela, o Brasil preservou políticas públicas estratégicas.
“Ao mesmo tempo em que abrimos oportunidades para alcançar os mercados europeus, também protegemos, dentro do que foi possível, a produção nacional, garantindo que o alimento que chega às mesas das famílias brasileiras continue vindo das mãos de homens e mulheres que trabalham no nosso campo, debaixo do sol e da chuva. São eles que asseguram a fartura, a diversidade e a comida saudável para as nossas famílias”, afirmou.
Fernanda destacou ainda oportunidades para cooperativas da agricultura familiar na exportação de frutas, café industrializado e outros produtos com maior valor agregado.
O encontro contou também com a presença do diretor de Coordenação da Itaipu, Carlos Carboni; do diretor-superintendente do Itaipu Parquetec, Irineu Colombo; do diretor de Negócios e Empreendedorismo do Itaipu Parquetec, Eduardo de Miranda; e do coordenador-geral do Show Rural, Rogério Rizzardi.

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