Bogotá (Colômbia) – A Justiça colombiana condenou, em segunda instância, Santiago Uribe Vélez, irmão mais novo do ex-presidente Álvaro Uribe, a 28 anos e três meses de prisão pela formação e comando de grupos paramilitares e pela prática de homicídio qualificado. A decisão do Tribunal Superior de Antioquia revoga a absolvição concedida em novembro do ano passado.

De acordo com a sentença, Santiago Uribe chefiou o grupo paramilitar conhecido como “Los Doce Apóstoles”, responsável por uma série de assassinatos e ações de “limpeza social” entre 1993 e 1994, no norte do departamento de Antioquia. Ex-integrantes da milícia prestaram depoimentos que corroboraram a existência do grupo e apontaram o irmão do ex-presidente como seu principal líder.

Segundo o tribunal, o grupo operava a partir da fazenda La Carolina, propriedade da família Uribe Vélez, localizada no município de Yarumal.
No texto da decisão, os magistrados registraram que Santiago Uribe “formou e dirigiu um grupo armado ilegal que, a partir da fazenda La Carolina, executou um plano para assassinar e exterminar sistematicamente pessoas consideradas indesejáveis e supostos ajudantes de grupos subversivos”.

Absolvição derrubada e críticas à primeira instância

Ao reformar a sentença, o Tribunal Superior de Antioquia criticou a atuação do juiz de primeira instância, que havia absolvido Santiago Uribe sob o argumento de falhas do Ministério Público e insuficiência de provas. Para a segunda instância, os depoimentos foram avaliados de forma “fragmentada”, desconsiderando a coerência do conjunto probatório apresentado pela acusação.

Além da pena de prisão em regime fechado, o tribunal negou o pedido de prisão domiciliar e impôs ao condenado o pagamento de uma multa equivalente a 2,4 milhões de dólares, pelos crimes de conspiração para delinquir e homicídio qualificado, quando há intenção de matar.

Paramilitarismo e a família Uribe

Tanto Santiago quanto Álvaro Uribe Vélez foram, ao longo das últimas décadas, associados a grupos paramilitares que atuaram em Antioquia. Enquanto o primeiro foi vinculado diretamente ao “Los Doce Apóstoles”, o ex-presidente é citado em denúncias relacionadas ao Bloque Metro, estrutura que articulava diferentes grupos armados ilegais na região quando ele governava o departamento, entre 1995 e 1997.

Os crimes atribuídos ao grupo remontam ao período de 1993–1994, mas apenas em 1997 as acusações sobre o envolvimento dos irmãos com o crime organizado vieram a público de forma mais sistemática. Uma investigação foi aberta, mas acabou arquivada em 1999 por “falta de provas”.

O tema voltou ao centro do debate político colombiano anos depois. Em 2007, o então senador Gustavo Petro denunciou, em plenário, o que chamou de “paramilitarismo no departamento de Antioquia”. Em 2014, novas denúncias foram apresentadas pelo senador Iván Cepeda, relacionando estruturas paramilitares às elites políticas da região e mencionando novamente a família Uribe.

Relatórios da Comissão da Verdade de Antioquia indicam que grupos desse tipo foram responsáveis por cerca de 70% dos massacres na região, combinando “limpeza social” – execuções de pessoas consideradas “indesejáveis” – com ataques contra grupos guerrilheiros de esquerda.

Repercussão e impacto político

A condenação em segunda instância de Santiago Uribe reacende o debate sobre a relação histórica entre paramilitarismo e setores do establishment político colombiano, em especial no departamento de Antioquia. O caso também projeta novos desdobramentos sobre a imagem de Álvaro Uribe, um dos nomes mais influentes da direita no país e alvo de investigações e questionamentos desde o fim de seu mandato presidencial.

A decisão do Tribunal Superior de Antioquia ainda pode ser alvo de recursos, mas consolida, até o momento, o reconhecimento judicial da responsabilidade de Santiago Uribe Vélez na criação e comando de uma das estruturas paramilitares mais emblemáticas da região.