*Por Gabriel “Koba” Xavier – Opinião
Em meio aos preparativos da COP30, a capital paraense se tornou um importante centro cultural, político e econômico em 2025. Recentemente aprovada no Senado para se tornar a Capital da República de forma temporária e simbólica, Belém também recebeu em seu seio um novo e ambicioso espaço cultural: o Museu das Amazônias. A construção do museu teve apoio do BNDES e do Governo do Pará, tendo como mantenedor o Instituto Cultural Vale. Ainda jovem, este recente instituto cultural foi fundado em 2020 e tem atuado desde então com propostas que exaltam a cultura popular brasileira. Eles fomentam a arte indígena e, em seus espaços geridos no Pará e no Maranhão, o meio ambiente também é homenageado. Entretanto, o surgimento deste instituto não é fruto de altruísmo ou de uma paixão pela cultura popular brasileira. No sistema em que vivemos, isso infelizmente não é uma realidade.
Apesar de já financiar projetos e espaços culturais há mais tempo, a fundação acontece convenientemente em um momento em que a imagem da Vale estava abalada pelos crimes cometidos nos anos de 2015 e 2019 em Minas Gerais. A negligência e irresponsabilidade da mineradora trouxeram ao estado sudestino o maior desastre ambiental de sua história, ceifando aproximadamente 300 vidas e danificando a natureza de forma quase irreversível. Propostas que fomentam a sustentabilidade, a proteção ao meio ambiente e a arte indígena são, nesse caso, nada mais que uma cortina de fumaça para limpar o nome dessa empresa criminosa.
Enquanto dizem fomentar a cultura e a sustentabilidade, seus danos à natureza e à população são inestimáveis, e seus lucros, cada vez maiores. Mesmo considerando o prejuízo causado pelos desastres — cujos gastos somados desde 2019 alcançaram R$ 83 bilhões —, a Vale, em 2024, já havia lucrado R$ 235 bilhões, enquanto os atingidos pelo desastre ainda buscam indenizações. Tendo sido privatizada há quase 30 anos, a Vale evidencia a preferência pelo lucro dos acionistas em detrimento das vidas de centenas de brasileiros, sendo um retrato do neoliberalismo que assola o Brasil desde os tempos da presidência de Fernando Collor.
O Instituto Cultural Vale se vangloria de, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, ter destinado R$ 135 milhões desde a sua fundação, o que representa 0,05% de seu lucro no mesmo período e, arrisco dizer, menos do que lhes é concedido em abatimento de imposto a partir das leis de incentivo. Assim como a Vale, outras empresas inimigas do povo — como os vários e poderosos bancos atuantes no país — se projetam, por meio de seus institutos e centros culturais, como amantes da cultura, alimentando, assim, uma imagem positiva no imaginário popular brasileiro. O irrisório investimento em cultura por parte dessas empresas é fruto do mesmo capital que assassina, desaloja e endivida o nosso povo.
___
*Gabriel “Koba” Xavier é formado em Teoria, Crítica e História da Arte pela Universidade de Brasília (UnB) e atua como professor e arte-educador. Como divulgador científico, ele aborda a história social da arte no canal Kultura Kritica no YouTube.
_____
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor (a) e não reflete necessariamente a nossa política editorial. O Fronteira Livre adota os princípios editoriais de pluralismo, apartidarismo, jornalismo crítico e independência