De acordo com Harold Barclay, antes do anarquismo se consolidar como perspectiva política distinta, os seres humanos viveram durante milhares de anos em sociedades sem governo formal. Anarcoprimitivistas sustentam que, antes da história escrita, muitas comunidades humanas eram organizadas segundo princípios anárquicos.
Entretanto, essa leitura é alvo de debates no campo antropológico. Críticos apontam limitações metodológicas na comparação entre sociedades pré-históricas e povos autóctones contemporâneos, alertando para diferenças de contexto histórico e cultural.
Alguns autores identificam ainda raízes mitológicas nessa visão, remetendo à “Idade de Ouro” da Grécia Antiga, ao Jardim do Éden cristão, ou ao mito moderno do “bom selvagem”, associado a Jean-Jacques Rousseau.
O anarco-primitivismo distingue-se do anarquismo verde, que não rejeita a tecnologia em si, mas critica suas formas de uso e apropriação social.
Filosofia ácrata na Grécia da Antiguidade
As palavras anarchia e anarchos (“sem governantes”) aparecem já em Ilíada e nas Histórias de Heródoto. O primeiro uso político do termo ocorre na tragédia Sete Contra Tebas (467 a.C.), de Ésquilo, quando Antígona desafia a autoridade da cidade.
Entre os filósofos, Aristipo de Cirene defendia que os sábios não deveriam sacrificar sua liberdade em nome do Estado. Já os cínicos, como Diógenes de Sínope e Crates de Tebas, advogavam formas de vida radicalmente antiautoritárias.
O principal destaque, contudo, é Zenão de Cítio, fundador do estoicismo. Sua obra A República descreve uma sociedade sem governo, baseada na razão e na moral individual. Piotr Kropotkin o considerava “o maior expoente da filosofia anarquista na Grécia Antiga”.
Em oposição à utopia estatista de Platão, Zenão defendia que a razão substituiria a autoridade. Já Aristóteles associava a anarquia à desordem, tratando-a como degeneração da democracia.
Filosofia ácrata na China da Antiguidade
Na China, por volta de 600 a.C., o taoísta Lao Zi desenvolveu o princípio do não-comando no Tao Te Ching. Em 300 a.C., Bao Jingyan defenderia explicitamente uma sociedade sem senhores nem servos, antecipando ideias libertárias modernas.
Movimentos e ideias ácratas no medievo
Durante a Idade Média europeia, surgiram movimentos religiosos com características antiautoritárias, como a Irmandade do Espírito Livre, os Hussitas, os Adamitas e os Anabaptistas. Sobre estes, Bertrand Russell destacou sua rejeição às leis e à autoridade secular.
No campo literário, François Rabelais imaginou, em Gargântua e Pantagruel, a Abadia de Thelema, regida pelo princípio “Faça o que quiser”. Já Étienne de La Boétie, em Discurso sobre a Servidão Voluntária, afirmou que a tirania se sustenta pela obediência dos próprios dominados.
Do século XVI ao XVIII: transição para a modernidade
Durante a Guerra Civil Inglesa, Gerrard Winstanley, líder dos Diggers, defendeu a posse coletiva da terra, sendo apontado por Liev Tolstói como expoente do anarquismo cristão.
No século XVIII, William Godwin formulou uma crítica sistemática às instituições políticas em Inquérito sobre a Justiça Política (1793), sendo considerado por Kropotkin o primeiro formulador das concepções modernas do anarquismo, ainda que evitasse o termo.
Século XIX: o nascimento do anarquismo moderno
O primeiro a se autodeclarar anarquista foi Pierre-Joseph Proudhon, em O que é a Propriedade? (1840). Seu célebre lema — “A propriedade é um roubo” — sintetiza sua crítica às relações econômicas capitalistas. Defensor do mutualismo, Proudhon influenciou profundamente o movimento operário francês e a Comuna de Paris (1871).
Outras vertentes emergem nesse período, como o anarcoindividualismo, inspirado em Max Stirner, e o socialismo libertário, desenvolvido por Mikhail Bakunin e Kropotkin, em oposição tanto ao capitalismo quanto ao socialismo autoritário.
Século XX: revoluções, repressão e ressurgimentos
No século XX, anarquistas atuaram em movimentos operários, camponeses e feministas, enfrentando o fascismo, o racismo e o autoritarismo. Destacam-se a Revolução Russa, o movimento makhnovista na Ucrânia e a Guerra Civil Espanhola, quando coletivizações libertárias floresceram na Catalunha.
No Brasil, o anarquismo ganhou força com a imigração europeia, impulsionando sindicatos, jornais e escolas libertárias. Nomes como Edgard Leuenroth, Maria Lacerda de Moura e José Oiticica marcaram esse período.
A partir dos anos 1960, o anarquismo ressurge associado à contracultura, ao movimento punk, às comunas urbanas e às críticas ecológicas à civilização industrial.
Artigo questiona narrativa de que a não violência produziu vitórias históricas