Foz do Iguaçu, PR – Levantamento realizado pelo Grupo de Pesquisa em Mobilidade e Matriz Energética da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) analisa a evolução dos preços do gás de cozinha (GLP) no Brasil e indica que decisões adotadas a partir de 2015 contribuíram para a concentração do mercado e para o aumento expressivo das margens de distribuição e revenda.
De acordo com o pesquisador Ricardo Hartmann, docente do curso de Engenharia de Energia da UNILA e coordenador do estudo, os altos preços pagos atualmente pelos consumidores são resultado direto de escolhas do governo federal no âmbito do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). “O que existe hoje é a consequência de decisões de política pública que se refletem no valor final do GLP”, afirma.
Mudanças na política de preços
O estudo cobre um período de dez anos, entre 2015 e 2024, com base em dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). A análise identifica marcos importantes que romperam com a estabilidade observada nos preços do GLP desde 2003.
O primeiro reajuste significativo ocorreu em setembro de 2015, com aumento de cerca de 15%. Dois anos depois, em 2017, foi implementada uma mudança considerada mais profunda pelos pesquisadores: a adoção de reajustes mensais, baseados na média dos preços praticados na Europa, acrescida de 5%.
“Os preços dispararam. Ninguém conseguiu segurar. Foi necessário mudar para reajustes trimestrais, o que freou um pouco, mas o movimento de alta continuou”, explica Hartmann.
Outra inflexão importante ocorreu em agosto de 2019, quando a Petrobras passou a adotar a política de paridade de preços de importação (PPI), vinculando o valor do GLP aos preços internacionais. No ano seguinte, a Liquigás, subsidiária da Petrobras, foi privatizada.
“Esse momento é crucial. Quando a Petrobras vendeu a BR Distribuidora, perdeu influência no mercado da gasolina. Com a venda da Liquigás, aconteceu o mesmo no mercado do gás”, analisa o pesquisador. Segundo ele, mesmo quando a Petrobras reduz preços, essa queda não chega ao consumidor final. “Os revendedores não repassam”, afirma, lembrando que o mesmo fenômeno já havia sido identificado em estudo anterior sobre os preços da gasolina.
Concentração e falta de regulação
Hartmann destaca que Petrobras e Liquigás conseguiam influenciar o mercado por deterem cerca de 40% da participação. “Quando a Petrobras reduzia preços, os demais distribuidores seguiam o movimento. Hoje, nenhuma empresa exerce esse papel regulador”, afirma.
Atualmente, quatro distribuidoras concentram mais de 60% do mercado nacional de GLP. Para o pesquisador, a promessa de maior concorrência e redução de preços com a privatização não se concretizou. “O que estamos vendo é exatamente o oposto. Sem o contraponto da Petrobras e com uma ANP com estrutura limitada de fiscalização, o preço tende a subir”, avalia.
Margens elevadas na revenda
A pesquisa também aponta diferenças significativas nas margens de comercialização. Na venda direta, as margens da Petrobras são semelhantes para gasolina (30,6%) e GLP (31,5%). Já na distribuição e revenda, a discrepância é expressiva: 19,5% para a gasolina e 52,1% para o GLP. “Fica evidente como a política adotada se reflete no preço final. A privatização da Liquigás e a liberação das margens na distribuição e revenda fizeram o valor do GLP ao consumidor disparar”, explica Hartmann.
Ele lembra que, entre março de 2018 e dezembro de 2024, o preço internacional do petróleo sofreu fortes oscilações queda acentuada durante a pandemia de Covid-19 e alta expressiva com a guerra na Ucrânia, mas encerrou o período praticamente no mesmo patamar, em torno de US$ 75 o barril.
No Brasil, porém, o botijão de gás passou de cerca de R$ 75 para R$ 115, sem recuos significativos. “Se o mercado fosse realmente competitivo, o preço teria se mantido estável. O que vemos é que a liberalização induz à inflação: o preço sobe e não volta a cair”, critica.
Impacto social
Segundo o pesquisador, se o mercado nacional operasse com parâmetros internacionais de preços e margens, o botijão de 13 kg poderia custar R$ 75 atualmente. “Muito abaixo do valor praticado hoje”, afirma.
Como alternativa, Hartmann defende a retirada da política de paridade de importação e a retomada da comercialização direta pela Petrobras. “Com maior oferta nas refinarias e preços baseados em custos nacionais e não em dólar seria possível alcançar um valor mais justo para o GLP”, avalia.
O estudo também analisou os preços em Cascavel e Foz do Iguaçu, que alternaram, ao longo do tempo, a posição de municípios com valores mais elevados. Para Hartmann, essa dinâmica precisa ser investigada com mais profundidade, incluindo fatores como fiscalização e prestação de contas. A próxima etapa da pesquisa deve analisar também a redução no número de revendas: Cascavel passou de 90 para 18 empresas; Foz do Iguaçu, de 31 para 12.
O impacto do alto custo do GLP é especialmente severo para famílias de baixa renda. Em situações de extrema pobreza, o gasto com gás pode chegar a 67% do orçamento familiar, enquanto para famílias de renda mais alta representa entre 1% e 2%. “O botijão pode chegar a 10% do salário mínimo. Quando não conseguem comprar gás, muitas famílias recorrem a lenha, madeira ou até etanol, o que gera riscos à saúde e à segurança”, exemplifica.
Hartmann ressalta que os efeitos dos altos preços se estendem por toda a cadeia social. “Cerca de 95% dos restaurantes utilizam GLP. O aumento do gás impacta diretamente o custo da alimentação fora de casa”, observa.
Para o pesquisador, o estudo da UNILA busca contribuir para o debate público sobre a política energética brasileira. “É uma discussão necessária. Precisamos tornar essas informações mais visíveis, porque o preço do gás não é resultado de um único agente, mas de toda uma cadeia de decisões e interesses”, conclui.