O primeiro dia do V Fórum Social e Popular da Tríplice Fronteira, realizado em Ciudad del Este, no Paraguai, foi marcado por debates e discussões sobre questões que transcendem a região fronteiriça. O evento contou com a participação de representantes do Brasil, Paraguai, Argentina, Colômbia, Equador, Bolívia e outros países, evidenciando a diversidade de perspectivas presentes.
Organizado por movimentos sociais, ONGs e a sociedade civil, o Fórum da Tríplice Fronteira se estabeleceu como um espaço de escuta e debate aberto e descentralizado. O objetivo é promover a formulação de propostas alternativas ao modelo econômico e social global, além de fomentar a troca de experiências entre movimentos sociais e a articulação entre indivíduos, organizações e instituições que se opõem ao neoliberalismo.
Em espaços distintos, integrantes de diversas organizações sociais, sindicatos e movimentos de classe debateram a situação da fronteira e de outros países do Cone Sul. O primeiro dia do evento foi dedicado à coleta de denúncias sobre violência de gênero, precarização do trabalho, diversas formas de violência contra crianças, adolescentes e jovens, e assassinatos de camponeses e indígenas. Os participantes também abordaram a questão da falta de direitos básicos e a retirada de direitos anteriormente conquistados, atribuindo essa situação a governos neoliberais e ao capitalismo. A pauta incluiu discussões sobre grandes usinas como Itaipu e Yacyretá, com foco na falta de reparação a trabalhadores e indígenas.

Denúncias mostraram um cenário preocupante de violência de gênero na América Latina e no Caribe. Em 2022, ao menos 4.050 mulheres foram vítimas de femicídio ou feminicídio em 26 países e territórios da região, conforme informações do Observatório da Igualdade de Gênero da América Latina e do Caribe (OIG) da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). Essa estatística alarmante indica a morte violenta de uma mulher a cada duas horas na região por razões de gênero.

Organizações sociais presentes no fórum condenaram projetos de leis antiterroristas propostos por governos neoliberais, argumentando que tais leis têm sido utilizadas para restringir o direito à greve e à livre manifestação contra a retirada de direitos e a ausência de políticas públicas, em vez de combater o terrorismo genuíno.
Adolescentes denunciaram a violência doméstica, escolar e nas ruas contra crianças na América Latina. Dados da UNICEF mostram que a violência contra crianças e adolescentes aumenta a cada ano, e que quase dois em cada três meninos e meninas de 1 a 14 anos sofrem disciplina violenta em seus lares. Além da agressão física e psicológica na primeira infância, o abuso sexual e o homicídio afetam milhões de crianças e adolescentes na região, com uma taxa regional de homicídios de 12,6 a cada 100 mil, quatro vezes superior à média global. O homicídio figura como a principal causa de morte entre meninos adolescentes de 10 a 19 anos.

Estima-se que 8,2 milhões de crianças entre 5 e 17 anos trabalham na América Latina e no Caribe. A maioria dessas crianças são meninos adolescentes, e 33% são meninas. O trabalho infantil está presente tanto em áreas rurais quanto urbanas, com 48,7% das crianças trabalhando no setor agrícola. Cerca de 50% das crianças envolvidas em trabalho infantil o fazem em atividades familiares, e mais de 50% realizam trabalhos considerados perigosos, comprometendo sua saúde, educação e bem-estar.
A combinação de perda de empregos, aumento da pobreza e fechamento de escolas é uma tempestade perfeita para a proliferação do trabalho infantil. Abandonar a escola e entrar no mercado de trabalho prematuramente reduz as chances de conseguir empregos melhores no futuro, perpetuando a armadilha da pobreza.
O fórum, que termina neste sábado, 12, conta com o apoio de diversas organizações da Tríplice Fronteira, entre elas, no Brasil: NOSOTROS, ANDES Regional Sul, SESUNILA e APP Sindicato de Foz do Iguaçu.