Washington – EUA
Documentos confidenciais revelados pelo portal Wikileaks trouxeram à tona uma face obscura da estratégia militar dos Estados Unidos no Oriente Médio. De acordo com os quase 3 mil arquivos vazados pela organização de Julian Assange, o governo norte-americano não apenas recusou ajuda à Síria no combate ao terrorismo, como também forneceu armamentos a grupos que deram origem ao atual Estado Islâmico (ISIS).
O cenário remonta a 18 de fevereiro de 2010, quando o general Ali Mamlouk, chefe da inteligência síria, tentou uma aproximação diplomática surpresa em uma reunião com representantes dos EUA. A iniciativa, ordenada pelo presidente Bashar al-Assad, visava demonstrar o empenho de Damasco no combate a grupos radicais como a Al-Qaeda e o então incipiente ISIS.
A proposta síria e os três pontos de cooperação
Durante o encontro com Daniel Benjamin, coordenador de contra-terrorismo dos EUA na época, o governo sírio enfatizou que a melhoria das relações diplomáticas entre os dois países deveria estar atrelada à cooperação em segurança.
A estratégia proposta por Miqad e Mamlouk baseava-se em três pilares fundamentais:
-
Maior papel regional para a Síria com apoio de Washington;
-
Política como base fundamental para as ações de cooperação;
-
Suspensão dos embargos econômicos para convencer a população síria da nova aliança.
Apesar da concordância mútua sobre a necessidade de conter o fluxo de guerrilheiros estrangeiros no Iraque, as divergências sobre grupos como Hezbollah e Hamas impediram o avanço. À época, George W. Bush já havia incluído a Síria no chamado “eixo do mal”.
“Nós não ficamos na teoria, tomamos atitudes práticas. Primeiro, nós nos infiltramos nessas organizações e entendemos o funcionamento delas”, afirmou o general Mamlouk sobre a experiência síria em conter centenas de terroristas.
A origem do armamento do Estado Islâmico
Embora os EUA afirmassem publicamente o desejo de combater o terrorismo, documentos indicam que o governo de Barack Obama trabalhou para armar opositores sírios. Grande parte desses recursos bélicos acabou nas mãos de Abu Bakr al-Baghdadi, líder do Califado Islâmico.
O armamento oficial começou a ser enviado em setembro de 2013, via bases clandestinas na Jordânia e Turquia, com suporte financeiro de aliados regionais como Arábia Saudita e Catar. O ISIS aproveitou essa estrutura para expandir sua influência, cooptando líderes de grupos anti-Assad que haviam sido treinados ou armados pelos ocidentais.
Ibrahim al-Badry: de prisioneiro a líder do Califado
A ironia histórica da atuação norte-americana culmina na identificação do líder do grupo. Em 2004, durante a ocupação de Falluja no Iraque, as forças dos EUA prenderam um militante considerado “pouco importante”: Ibrahim Awad Ibrahim al-Badry.
Dez anos após sua captura, o homem que esteve sob custódia do Pentágono ressurgiria como a liderança máxima da mais radical insurgência islâmica contra o Ocidente, consolidando o controle sobre vastos territórios na Síria e no Iraque.
(Charles Nisz / Opera Mundi)
PMEs encontram oportunidades na crise e chegam a dobrar faturamento