Curitiba, PR – O avanço da malha rodoviária no Brasil consolidou o modelo de transporte baseado em estradas, mas também intensificou impactos sobre a fauna silvestre. Entre 1960 e 1980, a extensão federal pavimentada saltou de 8,6 mil para quase 48 mil quilômetros, segundo o Conselho Nacional de Trânsito (CNT). Estudo publicado em 2022 na revista científica Diversity estima que cerca de 1,3 milhão de animais morrem anualmente em colisões nas rodovias brasileiras.

Em Curitiba, levantamento conduzido pelo projeto de extensão Olha o Bicho, vinculado ao Laboratório de Biodiversidade, Conservação e Ecologia de Animais Silvestres (Labceas) da Universidade Federal do Paraná, estimou que mais de 1,6 mil animais podem morrer por ano em um trecho de 5,1 quilômetros no entorno do Parque Tingui, na região de Santa Felicidade.

Entre março de 2023 e fevereiro de 2025, a equipe realizou 44 expedições de campo. Em cada saída, de dois a quatro observadores percorreram os dois lados da via, incluindo pista, calçadas e margens, em busca de carcaças. Ao todo, foram registradas 235 ocorrências.

Quando um animal era encontrado, os pesquisadores registravam data, horário e coordenadas geográficas em formulário online padronizado, além de realizar identificação taxonômica ao menos por grupo e registro fotográfico do exemplar e do entorno. Nos casos em que não era possível confirmar a espécie em campo, as imagens eram encaminhadas a especialistas parceiros. Para evitar recontagens, as carcaças eram removidas da pista e, quando em condições adequadas, destinadas a coleções científicas.

Os dados coletados permitiram estimar a mortalidade anual no trecho monitorado e identificar áreas de maior risco. Parte dos resultados foi sistematizada na monografia de Henrique Gelinski, bacharel em Ciências Biológicas pela UFPR e integrante da equipe de campo.

Com apoio do software Siriema, utilizado para analisar padrões espaciais de atropelamento de fauna, o pesquisador verificou que as colisões não ocorrem de forma aleatória. As áreas críticas concentram-se próximas a corpos d’água ambientes relevantes para reprodução de anfíbios, em trechos vizinhos a condomínios residenciais com tráfego local intenso e em segmentos com inclinação acentuada, que reduzem a visibilidade e dificultam a frenagem.

O estudo também calculou que o tempo médio de permanência das carcaças na pista é de 9,05 dias, dado considerado relevante para estimar taxas de mortalidade e compreender a dinâmica dos atropelamentos.

Anfíbios lideram registros de atropelamento

Entre as 235 carcaças registradas, foram identificadas espécies como gambá-de-orelha-preta (Didelphis aurita), tatu-galinha (Dasypus novemcinctus), coruja-buraqueira (Athene cunicularia), teiú (Salvator merianae) e jararaca (Bothrops jararaca).

Os anfíbios representaram 38% dos registros, seguidos por mamíferos (29%), aves (22%) e répteis (11%). Sapos do gênero Rhinella, conhecidos como sapos-cururu, foram os mais atingidos. Segundo os pesquisadores, o menor porte desses animais e os deslocamentos sazonais para reprodução podem aumentar a vulnerabilidade nas travessias.

De acordo com o coordenador do projeto, o atropelamento figura entre as principais causas de mortalidade de fauna silvestre em áreas urbanas com fragmentos verdes.

“Com os dados obtidos, é possível pensar intervenções práticas, como a instalação de passarelas aéreas ou subterrâneas para os animais, além de cercamentos direcionadores, redutores de velocidade e sinalização específica”, afirma o docente Fernando de Camargo Passos.

Além do monitoramento técnico, o projeto desenvolve ações de engajamento comunitário por meio de redes sociais, rodas de conversa e materiais informativos. Atualmente, a equipe acompanha outro trajeto de 5,9 quilômetros na estrada de acesso ao Zoológico Municipal de Curitiba, no bairro Alto Boqueirão.

A população pode comunicar registros de carcaças ou pontos de risco pelo WhatsApp: (41) 98883-1876.

“Também convidamos a comunidade para acompanhar nossos conteúdos pelo Instagram @olhaobicho.ufpr”, finaliza o professor.

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