Higino João Pio foi encontrado morto no dia 3 de maio de 1969, nas dependências da Escola de Aprendizes de Marinheiros, em Florianópolis. Segundo a versão oficial da ditadura militar, o então ex-prefeito de Balneário Camboriú teria se suicidado. Um novo laudo apresentado pela Comissão Nacional da Verdade, em parceria com a comissão estadual, aponta que a morte foi forjada e que Higino foi assassinado enquanto estava sob custódia do regime.
O corpo foi encontrado com as pernas eretas, os pés tocando o chão, os braços ligeiramente curvados e o queixo apoiado em uma saliência da parede do banheiro. Um arame estava preso ao redor do pescoço, amarrado de forma frágil a um registro de água a dois metros de altura. Para os peritos, a cena é incompatível com um enforcamento.
Segundo a reavaliação técnica, se o suicídio tivesse ocorrido, os braços estariam estendidos, as pernas dobradas ou suspensas e haveria sinais claros de luta e asfixia. Nada disso foi constatado nos laudos e nas fotografias analisadas décadas depois.
Higino Pio foi o primeiro prefeito eleito de Balneário Camboriú, em 1965. Filiado ao antigo PSD, derrotou o candidato da UDN, partido alinhado aos militares. A diferença ideológica é apontada como principal motivação para sua prisão e morte. Uma denúncia de corrupção, feita por opositores ligados ao regime, foi investigada por um interventor durante um ano, sem que qualquer irregularidade fosse comprovada.
Levado de casa no dia 19 de fevereiro de 1969, uma Quarta-feira de Cinzas, Higino disse à esposa que iria a Florianópolis prestar esclarecimentos e que retornaria em seguida. Nunca voltou. Doze dias depois, a família recebeu a notícia oficial de seu suposto suicídio, em pleno endurecimento da repressão após o AI-5.
“Aqui há uma tentativa de formar um quadro de suicídio que não foi questionado na época por quem era de direito questionar”, afirmou Pedro Cunha, perito da Comissão Nacional da Verdade, durante a audiência.
Segundo Cunha, o grau de rigidez do corpo indicava que Higino já estava morto havia pelo menos 12 horas antes da cena ser montada. Dos dez catarinenses mortos pela ditadura, ele foi o único assassinado dentro do próprio estado.
“Foi mais montado que o do Herzog. No caso do Higino sequer havia força vertical ou gravitacional acionando um sistema de forca”, explicou Pedro Cunha, perito da Comissão da Verdade.
Entrevista – Júlio César Pio
Seu filho, Júlio César Pio, tinha 14 anos quando soube da morte do pai pelo rádio.
“Corri para casa. Pensei: o prefeito é o meu pai. Dentro de casa a verdade sempre foi a de que tinham matado ele”, conta.
Ele levou os filhos para acompanhar a reunião da Comissão da Verdade, onde a história foi oficialmente revista.
“Eles têm que saber o que aconteceu com o avô deles. A gente já sabia da verdade, mas agora foi comprovado e o povo pode saber também”, afirmou Júlio César Pio.
Questionado se a família podia falar sobre o assunto na época, ele respondeu:
“Não. Nem o caixão a gente pôde ver, estava lacrado. Eu nem cheguei a ver meu pai morto.”
Sobre o que muda a partir da confirmação oficial, Júlio César foi direto:
“Vou andar com a cabeça erguida, como sempre andei. A gente vai tocar a vida.”
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