Por Óscar Sotelo Ortiz @oscarsopos

O cientista social faz um balanço dos sete anos de tensões colombo venezuelanas, a crise migratória e as razões do incumprimento dos objetivos sociais e econômicos esperados com a reabertura da fronteira.

A despedida com o professor Jorge Forero Coronel foi na entrada da Ponte Internacional Simón Bolívar. Uma vez acabado o XV Congresso Fronterizo de Direitos Humanos, e logo após fazer algumas compras de rotina, o pesquisador tinha que retornar para a cidade de San Cristobal na Venezuela. A ideia foi entrar em “La parada”, aquele lugar inacessível na beira do rio Táchira. Apesar de se respirar um ambiente de tranquilidade aparente, nos dias seguintes uma incursão da Polícia Nacional da Colômbia acabou com uma troca de tiros com o ELN, ator armado que controla com fogo e sangue o misterioso município de Villa del Rosario.

Descartando uma possível visita, caminhamos pela estrada que conecta os dois países bolivarianos e por onde transitam centenas de pessoas, seja por ar ou a pé, em táxi, ônibus ou veículo particular. É a fronteira que nos anos recentes foi um dos principais cenários da crise migratória, problema que ainda sofre o povo venezuelano. “Antes o cenário era apocalíptico”, disse pra nós o professor Forero, que é torcedor raiz do Deportivo Táchira e cientista social do Centro de Investigações e Estudos Fronteiriços. Segundo várias pessoas que assistiram ao congresso de direitos humanos, ele é uma verdadeira autoridade sobre o tema. “Agora sou fronteiro logo”, diz tranquilamente com seu sotaque do suroccidente venezuelano.

A entrevista aconteceria na Praça da Confraternidade, mas o tempo e o cansaço nos obrigaram a usar meios digitais. Um dia depois, ele de San Cristobal e VOZ desde Bogotá, aconteceu o encontro.

Diagnóstico

A partir de qual momento nos pode localizar a atual crise na fronteira?

A crise não começou em 2015. Mas o fato desencadeante da quebra de relações e o fechamento da fronteira foi em Agosto daquele ano, por causa de um ataque feito por um grupo armado contra oficiais da Força Armada Nacional Bolivariana. Com a situação desbordada, o Estado da Venezuela tomou decisões enérgicas, na minha opinião, erráticas. No lugar de fortalecer as instituições das localidades fronteiriças e garantir os direitos do povo, o foco acabou sendo a militarização e securitização.

Desde 2019 uma porção importante da sociedade venezuelana migrou, sendo as fronteiras os cenários da crise. Qual é a sua análise do fenómeno que se experimentou?

Nesse ano há uma situação de depressão econômica muito grave na Venezuela. Os meios de vida de milhões de pessoas colapsaram de um momento para o outro. Foi uma situação traumática. As pessoas começaram a ver na migração uma oportunidade para sair desse estado de choque. A crise migratória acabou colapsando a fronteira por duas razões. Primeiro, porque muita gente ficou na cidade de Cúcuta. Algumas cifras oficiais dizem que ao redor de 300 mil venezuelanos chegaram, numa cidade com alto desemprego e informalidade, com problemas na prestação de serviços públicos e acesso à saúde, dentre outras dificuldades. Isso também aconteceu em San Antonio do Táchira.

O segundo, todo o que tem acontecido, rolou no contexto de recomposição do conflito armado na Colômbia, onde o ELN deslocou ao ‘Clan del Golfo’ da linha fronteiriça. Porém, essa situação humanitária terminou sendo instrumentalizada pelos grupos irregulares que escalaram a violência para regiões com trânsito de gente.

Aliás, tudo se tornou mais complexo com a chegada de estruturas criminais, muito rudimentares no seu jeito de funcionar, mas muito perigosas pela sua capacidade de fogo. Temos o caso do famoso Tren de Aragua que ingressou nessa região com a intenção de controlar alguns dos passos ilegais na fronteira.

Produção de valor

Dois anos depois da reabertura fronteiriça, qual é o balanço geral?

Como moradores desta região nos produz muita esperança que os estados estejam preocupados com o atendimento dos direitos das pessoas. É maravilhoso conseguir passar pela ponte, seja caminhando, de bike, de ônibus ou táxi.

Desde o ponto de vista econômico há um tópico muito sensível, a migração laboral pendular, algo que sempre tem existido. Para milhares de pessoas é muito importante passar pela ponte e não por uma caminho empedrado para exercer seu direito ao trabalho. Acontece o mesmo com saúde ou educação. Os atores econômicos estão tentando reconstruir suas dinâmicas de troca comercial, abrindo a possibilidade a novos negócios. Falando do intercâmbio comercial, entre 2023 e 2024 nos primeiros três meses teve um crescimento de 16%. É significativo se considerarmos que desde 2016 vínhamos em queda.

Mas há um dano estrutural no metabolismo da fronteira que não tem se conseguido corrigir, pois as economias legais e ilegais tiveram que se adaptar às dinâmicas da ilegalidade.

Teve uma hibridação onde os atores da economia legal começaram a pagar dinheiro para os grupos armados que controlam os passos fronteiriços ilegais, mais conhecidos como “Trochas”, com o objetivo de continuar com a sua atividade comercial. Por supuesto, meios e pequenos atores econômicos também construíram cadeias de fornecimento com alto valor.

Essas dinâmicas constituídas em quase uma década de fronteira fechada são difíceis de reverter. O povo se acostumou com aquilo não só porque seja aparentemente mais rentável, se não porque há desconfiança diante um possível novo fechamento do passo. Essa racionalidade econômica, de pensar que tem mais benefícios com a fronteira fechada, responde a essa situação de instabilidade e incerteza.

Tudo isso nos leva à conclusão que definitivamente vai ser uma transição complexa e não imediata.

Quais serão as estratégias para uma certa reativação da fronteira?

O que temos para fazer é construir uma política pública para reverter essas situações. É o dever. Como nos diz a Venezuela, é muito importante que os poderes estatais comecem a “botar os dentes” no tema.

É importante compreender que as potencialidades desta fronteira, além do comercial, estão associadas à produção de valor. Em momentos de recessão precisamos nos reinventar e reconstruir tecidos. Estão as condições para voltar a planejar uma saída ao mar Caribe pela Lagoa de Maracaibo. Também estão as ideias de projetos ferroviários, capacidades industriais instaladas e a mão de obra qualificada.

Se fortalecermos a fronteira como uma região econômica com a visão da produção de valor a partir de um marco de relações de complementaridade e integração, nos pode superar a crise dando garantia aos direitos básicos da população que mora neste território.

Acabou de terminar o XV Congresso Fronteiriço de Direitos Humanos em Cúcuta. Qual é o balanço do evento?

O congresso tem se posicionado no imaginário da população da fronteira como um foro da defesa e promoção de direitos humanos. É um espaço para a deliberação e o diálogo social onde se encontram lideranças sociais e defensores dos direitos humanos com atores do poder estatal e da sociedade civil, organizações não governamentais e com agências de cooperação.

Ter um cenário como esse nos permite dar visibilidade e fortalecer o tecido social através do diálogo. Comemoro que tenha sido um êxito desde o ponto de vista do conteúdo e da convocatória. Para isso tenho que reconhecer o esforço de toda a equipe do Comitê Permanente pela Defesa dos Direitos Humanos, CPDH, Capítulo Norte de Santander.

Voz La Verdad del Pueblo
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