Foz do Iguaçu (PR) – Entre o Dia das Bruxas, o Dia de Todos os Santos, o Dia dos Mortos e o Dia do Saci, o fim de outubro e o início de novembro formam um mosaico de celebrações que misturam espiritualidade, memória e cultura popular. Embora distintas em origem e significado, essas datas revelam como os povos transformam o medo da morte em homenagem, resistência e arte.
Halloween: a antiga festa celta que conquistou o mundo
Apesar de amplamente associado aos Estados Unidos, o Halloween tem origem em um ritual celta de mais de 3 mil anos, o Samhain (“fim do verão”). A data marcava o encerramento das colheitas e o início do novo ano celta, quando se acreditava que o véu entre o mundo dos vivos e dos mortos se tornava mais tênue.
Durante a noite, os celtas deixavam oferendas de comida e bebida nas portas e acendiam velas para guiar os espíritos de volta ao seu mundo. Usavam fantasias e máscaras feitas de peles de animais para confundir as almas errantes.
Com o avanço do cristianismo, o Samhain foi incorporado ao calendário católico como a Véspera de Todos os Santos (All Hallow’s Eve), origem do nome “Halloween”. Levado aos Estados Unidos por imigrantes irlandeses no século XIX, o costume se espalhou pelo mundo através do cinema e da cultura pop, ganhando o formato atual de “doces ou travessuras”, abóboras iluminadas e fantasias sombrias.

🌪️ Dia do Saci: o folclore brasileiro em resistência cultural
No Brasil, o 31 de outubro também é o Dia do Saci Pererê, uma resposta cultural ao domínio estrangeiro do Halloween. A data foi instituída por lei em 2003, para valorizar o folclore nacional e reafirmar a identidade brasileira.
O Saci, personagem das lendas populares, é retratado como um menino negro, de uma perna só, com gorro vermelho e cachimbo, que se desloca em redemoinhos e prega travessuras nas pessoas. Símbolo de esperteza e resistência, o Saci representa a sabedoria popular e a herança afro-indígena do país.

Dia de Todos os Santos: fé e memória
Celebrado em 1º de novembro, o Dia de Todos os Santos nasceu na Igreja primitiva como uma forma de homenagear os mártires cristãos. Com o tempo, passou a lembrar todos os santos e fiéis falecidos.
O Papa Gregório III fixou a data como uma alternativa cristã ao antigo Ano Novo celta, promovendo uma transição simbólica das festas pagãs para celebrações de fé. Hoje, o feriado é lembrado em diversos países com flores, velas e orações nos cemitérios, marcando o início do ciclo de homenagens aos mortos.
Dia dos Mortos: ancestralidade viva no México e na América Latina
No México, o Día de los Muertos, celebrado entre 1º e 2 de novembro, é uma das manifestações culturais mais ricas da América Latina. A tradição, de origem asteca e maia, mistura rituais indígenas com elementos católicos trazidos pelos espanhóis.
Altares coloridos com velas, flores de cempasúchil, fotografias e oferendas homenageiam os entes queridos. A caveira La Catrina, criada pelo artista José Guadalupe Posada no início do século XX, tornou-se símbolo da igualdade diante da morte e da força da cultura mexicana.
Mais do que luto, o Dia dos Mortos é celebração da vida e da ancestralidade, transformando o cemitério em um espaço de encontro, música e memória coletiva.
Entre abóboras, caveiras e redemoinhos: a força da memória
Apesar das diferenças, todas essas celebrações têm algo em comum: a tentativa humana de dar sentido à vida e à morte, transformando o medo em festa, a saudade em memória e o mistério em arte. Seja com abóboras iluminadas, pães dos mortos ou redemoinhos travessos, o fim de outubro e o início de novembro revelam o quanto cada cultura transforma sua própria forma de lembrar, resistir e celebrar a existência.
Box Cultural – Símbolos e Significados
Flor de Cempasúchil (México) – Também chamada de Tagete, é a flor do sol e guia espiritual no Día de los Muertos. Diz-se que sua cor laranja ilumina o caminho das almas que retornam à terra.
La Catrina – Criada por José Guadalupe Posada, a elegante caveira de chapéu simboliza a crítica social às elites e o orgulho popular mexicano.
Redemoinho do Saci (Brasil) – Representa o movimento da vida e da natureza. O redemoinho liga o mundo físico ao espiritual, remetendo à ancestralidade afro-indígena.
Abóbora de Halloween (EUA) – Inspirada na lenda irlandesa de Jack-o’-Lantern, que enganou o diabo. A vela dentro da abóbora simboliza a alma que vagueia entre dois mundos.