Buenos Aires (Argentina) – Situações de violência passaram a fazer parte da rotina de comedores populares em bairros da capital argentina, como Constitución, algo que até recentemente não era comum nesses espaços. Militantes da Casa Darío Santillán, ligada ao Movimento dos Trabalhadores Excluídos (MTE), afirmam que os conflitos se intensificaram nos últimos meses e relacionam o cenário ao agravamento da crise social, ao aumento da população em situação de rua e aos efeitos das políticas de ajuste do governo de Javier Milei.
No comedor da rua Santiago del Estero, disputas por lugar na fila, por porções de comida ou por motivos banais se tornaram frequentes. “Há bardo”, resume uma militante, usando a expressão local para definir conflitos imprevisíveis, que surgem sem aviso e exigem constante mediação.
Conflitos inéditos e mudança na rotina
Um episódio recente marcou um ponto de ruptura. Durante a distribuição do almoço, uma mulher que se recusava a entrar na fila passou a insultar as cozinheiras, alegando estar grávida e ameaçando quem tentasse se aproximar. Em meio à discussão, ela derrubou a panela principal no chão, espalhando a comida e deixando cerca de 80 pessoas sem refeição naquele dia.
Embora o espaço já tivesse lidado anteriormente com brigas e até com casos envolvendo armas brancas, militantes relatam que a situação atual é diferente. Após o episódio, decidiram manter a panela dentro do local, atrás da porta, e reorganizar a distribuição – uma decisão considerada difícil por quem atua na militância social.
“Isso não acontecia”, relatam as cozinheiras. Segundo elas, situações semelhantes não eram registradas nem durante a crise de 2001 nem no período mais crítico da pandemia de Covid-19.
Ajuste econômico e precarização do cuidado comunitário
As organizações apontam que o aumento da violência ocorre em um contexto de desmonte das políticas de cuidado comunitário. Entre 2024 e 2025, o governo nacional suspendeu o envio regular de alimentos aos comedores, congelou os repasses mensais – em torno de 78 mil pesos – e promoveu campanhas oficiais questionando a existência de comedores populares.
Como consequência, centenas de unidades fecharam e as que permanecem em funcionamento operam com menos pessoas e maior sobrecarga. Além disso, deixaram de contar com promotoras de saúde, equipes de acompanhamento social, agentes de prevenção ao uso problemático de drogas e apoio para encaminhamento de documentos e serviços.
Quando trabalhadores também dependem do comedor
Outro fenômeno recente é a presença crescente de trabalhadores formais nos comedores. Pintores, operários terceirizados e trabalhadores da construção civil passaram a buscar refeições por não conseguirem arcar com os custos diários de alimentação.
“Eles começaram vindo buscar o café da manhã. Depois perguntaram se podiam almoçar, porque a empresa terceirizada não paga alimentação”, conta Elsa, uma das cozinheiras. Segundo ela, a situação reflete a perda de poder de compra mesmo entre quem tem trabalho.
Estratégias para lidar com a violência
Para tentar reduzir conflitos, o comedor passou a distribuir senhas, priorizando pessoas com deficiência, famílias com crianças, moradores de hotéis precários e, por fim, pessoas em situação de rua. Militantes também circulam pela fila conversando com quem espera, buscando antecipar tensões.
Apesar disso, as situações-limite persistem. Em um caso recente, uma mulher que já havia causado problemas chegou a defender as cozinheiras durante outra briga, afastando um agressor com um pedaço de madeira.
“Estamos numa sociedade violentada”, diz Gladys, uma das militantes. “A gente já carrega os próprios problemas, e quando vem alguém gritando e ofendendo, o desgaste mental aparece.”
Violência como expressão social, não individual
Os militantes afirmam que não encaram a violência como algo pessoal, mas como expressão de uma deterioração social mais ampla. Em um episódio citado, uma mulher esfaqueou o companheiro durante uma discussão por ciúmes. O ferimento foi leve, mas reforçou a sensação de que os conflitos estão mais frequentes e mais intensos.
A exclusão temporária de quem provoca conflitos é discutida, mas raramente aplicada. “Quem somos nós para tirar comida de alguém?”, questionam.
Resistência e adaptação
Diante da retirada do apoio estatal, organizações como o MTE passaram a buscar doações por conta própria e mantêm campanhas como “Nenhum Pibe com Fome”. Ao mesmo tempo, pressionam para que o trabalho sociocomunitário seja reconhecido, remunerado e dotado de direitos – um debate que, segundo os militantes, dificilmente avançará no atual governo.
Enquanto isso, os comedores seguem funcionando, adaptando-se a contextos cada vez mais adversos. “A militância social sempre fez isso: aprende a se mover em tempos difíceis”, resume uma das cozinheiras. “É assim que consegue continuar.”