A Ilha da Trindade, ponto mais isolado e habitado do território brasileiro, acaba de ganhar um moderno sistema híbrido de geração de energia. A iniciativa parte do programa Itaipu Mais que Energia, substitui os antigos geradores a diesel por um conjunto de painéis solares, baterias de lítio e um gerador de reserva, reduzindo drasticamente os impactos ambientais e logísticos da produção de energia no local. Localizada a 1.160 km da costa do Espírito Santo, a ilha é um santuário ecológico e estratégico para a soberania brasileira no Atlântico Sul. Agora, ela também se destaca como exemplo nacional de transição energética em áreas remotas.

O novo sistema entrou em operação há pouco mais de 30 dias e já demonstra resultados expressivos: o uso de diesel foi necessário em menos de 2% do tempo. A previsão é que o consumo anual caia de 60 mil para apenas 6 mil litros, uma redução de 90%. A usina conta com: 480 painéis solares (264 kWp), uma central de 200 kW, 48 baterias de lítio (645 kWh) e um gerador a diesel como suporte emergencial.

Com investimento de R$ 6,8 milhões, o projeto foi viabilizado por meio de um convênio entre Itaipu Binacional, Itaipu Parquetec e a SECIRM (Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar), vinculada à Marinha do Brasil.

A operação logística foi complexa e envolveu: o transporte de 50 toneladas de equipamentos a bordo do NDCC Almirante Saboia, o apoio aéreo de um helicóptero H225M da Marinha, 61 manobras verticais (VERTREPs) e 38 pousos na ilha. A missão também possibilitou a retirada de 10 toneladas de resíduos acumulados, demonstrando o compromisso com a sustentabilidade. “O helicóptero transportou até um trator, essencial para as operações em terra”, relatou o comandante Allan de Almeida Nunes, da Marinha.

Potencial biotecnológico e soberania nacional

O sistema fotovoltaico foi desenhado para garantir autonomia energética com segurança. Segundo Rogério Meneghetti, superintendente de Energias Renováveis da Itaipu, a energia excedente é armazenada para uso noturno ou em dias nublados, com o gerador atuando apenas em emergências.

Além da geração solar, estão sendo implementadas melhorias de eficiência como: substituição de chuveiros elétricos por aquecimento solar, iluminação LED e automação dos sistemas internos da ilha. A Ilha da Trindade abriga a Estação Científica (ECIT), onde já passaram mais de 1.500 pesquisadores. Para o oceanógrafo Guilherme Dutra, do Instituto Trindade, a substituição do diesel é um passo essencial: “A ilha é uma das últimas grandes áreas remotas preservadas no Atlântico Sul. Reduzir impactos é vital para garantir a continuidade das pesquisas.”

O local também é o maior ponto de desova da tartaruga-verde no Brasil e o segundo da América do Sul, além de ser habitat de espécies endêmicas como o caranguejo “John” e abrigar uma floresta única de samambaias gigantes. O pesquisador Fernando da Silva de Oliveira, doutor em biotecnologia, destaca o potencial científico da biodiversidade local: “Espécies endêmicas podem conter compostos inéditos com aplicação farmacêutica. Preservar o ambiente é preservar o conhecimento.”

Para o diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Enio Verri, o projeto reforça o papel da empresa pública na transição energética e na defesa da soberania: “Trindade faz parte da Amazônia Azul. Este projeto fortalece a presença do Estado, a infraestrutura científica e o modelo de sustentabilidade em áreas remotas.”

As tratativas para o projeto começaram em 2016, com um protocolo de intenções firmado entre Itaipu, Itaipu Parquetec e a SECIRM. Em 2017, foi realizado o diagnóstico energético da ilha. O convênio prevê também intercâmbio técnico-científico em áreas como segurança cibernética, comunicação e estruturas estratégicas. Com essa iniciativa, a Ilha da Trindade se transforma em modelo de eficiência energética, soberania e inovação em nome da ciência e do meio ambiente.

Foto: Alexandre Marchetti – Itaipu Binacional.