GOIÂNIA | GO – No dia 13 de setembro de 1987, a curiosidade diante de um brilho azul intenso e fascinante mudou para sempre a história de Goiânia e do Brasil. O que parecia ser um fragmento mágico encontrado em uma máquina de radioterapia abandonada era, na verdade, o Césio-137 — um elemento altamente radioativo que desencadeou uma catástrofe humanitária e ambiental. Esse evento histórico, muitas vezes relegado ao esquecimento pelas novas gerações, é o tema central de Emergência Radioativa, minissérie produzida pela Gullane que estreou na Netflix no último dia 18 de março.
A produção utiliza o gênero do thriller para recontar a corrida contra o tempo de médicos e cientistas brasileiros para conter a contaminação. No entanto, enquanto a ficção celebra heróis anônimos e conquista audiência, na vida real, as vítimas e a Associação de Vítimas do Césio-137 (AVCésio) lutam para que suas dores não sejam transformadas apenas em entretenimento.
O abismo entre a ficção e a realidade atual
Para os sobreviventes, a série é um gatilho de feridas que nunca cicatrizaram e uma oportunidade perdida de mostrar as consequências de longo prazo. Lourdes das Neves, mãe da pequena Leide (retratada como Celeste na série), perdeu o marido, a residência e a filha para a radiação. Ela relata com tristeza que, com o passar das décadas, o amparo estatal desapareceu.
“Antes a gente tinha toda a assistência. Ganhava medicação, podia ser o preço que fosse. Tinha o salário, tinha a cesta básica, tinha tudo. Depois saíram cortando”, explica Lourdes. Hoje, ela afirma que o valor da pensão é insuficiente para comprar os remédios de uso contínuo que a exposição ao césio tornou obrigatórios.
O silenciamento de quem viveu o drama
A principal crítica da Associação das Vítimas reside na falta de diálogo da plataforma de streaming com os atingidos. Marcelo Santos Neves, presidente da AVCésio, classifica a abordagem como desrespeitosa por ignorar os protagonistas reais da tragédia durante a fase de roteiro e produção.
“As gravações nem aconteceram em Goiânia, foram feitas em São Paulo. Como é que você faz uma obra contando essa história e não chama quem realmente viveu tudo isso?”, questiona Marcelo. Segundo ele, contar versões incompletas gera lucro e audiência, mas não ajuda na luta por reajustes de pensões que estão congeladas há sete anos.
O choque do desconhecimento
A importância de resgatar esse tema fica evidente em uma situação inusitada ocorrida durante os bastidores. O ator Johnny Massaro, que integra o elenco principal, confessou que, inicialmente, não sabia que a trama era baseada em fatos reais brasileiros.
“Quando li a cena, a sinopse, achei que era ficção. Quando descobri que era verdade, foi um choque. Se eu não conhecia, talvez muita gente também não conheça”, pontuou Massaro.
Por que assistir a Emergência Radioativa?
Apesar das controvérsias, o diretor Fernando Coimbra ressalta que a obra busca resgatar um evento histórico quase esquecido que diz muito sobre nós como nação, trazendo médicos e físicos como protagonistas incomuns. Para o público do Fronteira Livre, assistir à série é fundamental para:
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Compreender a negligência: Ver como o descarte inadequado de lixo hospitalar pode gerar um rastro de destruição por três séculos (tempo de vida do Césio-137).
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Apoiar a causa das vítimas: A visibilidade da série pode — e deve — servir de pressão sobre as autoridades para que o monitoramento de saúde das 1.600 pessoas afetadas e das 112 mil monitoradas na época não seja interrompido.
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Valorizar a memória: Entender as cicatrizes que o brilho azul deixou no solo de Abadia de Goiás e na alma do povo goiano.
A minissérie já está disponível na Netflix e é um convite à reflexão sobre a responsabilidade do Estado e das empresas diante de desastres tecnológicos.
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